sexta-feira, 11 de maio de 2018

Carga


Carrego comigo imagens, cheiros, músicas, tardes, sustos, danças, conversas, apelos.

Voltando do trabalho, andando próxima à minha atual rua em direção à minha casa, passo em frente a um restaurante-hamburgueria. Observo-o, espaço bem humilde e, ao olhar para a sua parte interna, me assalta a imagem a pizzaria chinfrim que fomos por falta de opção no nosso último dia em Havana. Os restaurantes já estavam fechados, eu estava super rabugenta, indisposta e com um pouco de medo, eu acho. No fundo, acho que eu sabia em algum lugar que quando voltássemos todas as questões que me assombravam e me enfraqueciam na nossa relação também voltariam e, enfim, numa hora ou noutra, nós iríamos nos diluir.
Eu tinha medo, sentia frio; sentia-me sozinha. Sentimentos esses totalmente paradoxais naquele cenário de calor ardente, suor constante, companhia em tempo integral. Infelizmente, eu já estava cansada de saber que nós queríamos coisas diferentes. Me machuquei esse tempo todo para tentar te agradar, me aproximar, te tocar e, no fundo, o que eu queria mesmo - e sustentava a ilusão de que aconteceria - era te mudar. E isso é uma merda. Mas eu não me dava conta. Queria trocar sacrifícios: mudança por mudança, enquadramento por enquadramento. Que muita gente sobrevive assim, eu sei. Mas eu nunca quis só sobreviver. E hoje eu sei que não é papo de que eu nunca estou satisfeita, como você me dizia. Não é histeria, não se trata disso. Haviam muitas coisas importantes para mim que eu não via em você e vice-e-versa.
Para começar, o amor. Aquele que lava, transforma, movimenta. Éramos muito frágeis, sozinhos e como casal. Eu expunha a fragilidade, você buscava guardá-la a 7 chaves e, se possível, negá-la a maior parte do tempo, tanto quanto você suportasse. Narciso se afoga no espelho, e você?
É impressionante o quanto vivemos com alguém e, depois, para onde vamos? O nós desfaz nosso nó, nosso entrelaçado; a corda se desenlaça e a história vai para onde? Não tem filme, não tem registro o suficiente. Eu não queria esquecer. Queria elaborar até o limite da elaboração, guardar em caixas intocáveis. Não deixar evaporar.

"Ainda bem que a gente teve Cuba".


"Eu acho você uma pessoa genial, eu gosto de conversas com você sobre política, eu respeito as suas opiniões".


"Eu não vivo sem você".
"Nossos filhos serão lindos".
"Você está me matando".
"- Eu não consigo dizer.
- Mas por que? Me diz, estou preocupado.
- Porque eu te amo.
                          (tempo...)
- Você quer se separar?
                          (respiração profunda)
- Quero, quero, quero, quero...
                          (chorando muito)
sensação de loucura, 
de perder o chão,
de quase-morte".

"- Pode falar, eu sei que você me ama (...). Sei porque eu também te amo".

"Você me enganou, é assim que eu sinto. Eu me casei achando que a nossa vida seria uma e ela é outra. Você decidiu isso sozinha, sem me consultar e eu tive que respeitar. Me deixou no barco sozinho". 

"- Faz o seguinte? Nem volta pra casa, eu não quero te ver hoje.
- Você diz: pra casa que também é minha? 
- Se você vier, eu saio."

"Você precisa parar de se colocar em risco. Senão eu não vou namorar com você porque eu me preocupo, eu não vou dormir de preocupação".

"Eu tô cansado, me deixa em paz".

"O sonho dela é fazer uma viagem de trailer".

"Eu não quero fazer esforço, mas eu não quero te perder", diz o narcisista que eu amei.


Dividimos idas ao mercado, beijos em piscinas, mares, banhos, cinemas, camas, boates, igreja. Carrego comigo abraços, risos, apoio, presentes, tretas, brigas, socos na parede, nó na garganta, sexos, fissuras, apego, comemorações, viagens, medo, carinho, cartas e tanto mais.

É tanto que nem cabe. Nunca coube. Você sempre me deixou vazando, nunca pude suportar. 

Lembro do nosso quarto de hotel do casamento, de chegarmos lá depois da festa, de uber, chovendo. Exaustão. Então foi isso? Casados. Você estava feliz, mas parecia atuando um pouco ao mesmo tempo. A festa foi um momento feliz, apesar de estranho. Pareceu um filme. Tudo se encaixava. Entrei no banheiro enjoada e ri de/para mim mesma: "que articuladora de história que eu sou. Fiz um romance da minha vida. Escrevi com meu corpo, minhas horas, minhas lágrimas, minha força e minha sujeição. Corpo encouraçado X vibrátil. Medo constante. 

Eu queria ser a bailarina que sempre quis. Mas eu danço como a louca que eu sou.

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