terça-feira, 12 de junho de 2018

quinta-feira, 17 de maio de 2018

a outra

e se todas nós nos encontrassemos
e sentassemos numa mesa de bar p conversa
seria engraçadissimo
e incômodo
e afetuoso, talvez
pois como somos radical-
mente
diferentes;

outro dia entrei num bar
e vi uma menina sentada
mulher feita
cheia de mistérios

me demorei observando-a
encantada e encafifada pelos seus suspiros
e de repente
levei um susto

percebi 
que ela era eu
um eu possível, um eu futuro 

com o choque,
despedacei-me e colei-me 
em seguida
largando uns restos pelo caminho
e no processo
tornei-me 

saí do bar outra
a outra que sou

Rascunho de um luto inacabado

Um luto perdido e interrompido por aí

Você chegou para ocupar espaço. Desde a primeira vez que eu te vi, é só isso que você faz: ocupa meus buracos, meus pensamentos, minha casa. E eu estou de mudança agora. Procurando outro apartamento, me desfazendo dos papéis acumulados com o tempo, das roupas que não uso mais e das pessoas que me mantém sempre atrás de onde eu poderia ir. Você é o exemplo perfeito disso.

Rascunho de um caderno antigo (2)


Eu leio você sozinha, mais sozinha do que nunca. É tudo uma via de mão única, comigo alimentando o esquentar do peito again and again, encore et encore. Estou cansada. Me vem um gosto amargo na garganta, que sobe devagar até a boca. Que eu te vomite logo, eu penso; e meu corpo agradece.

Rascunho vienense


Tem alguma coisa nessa cidade que me puxa pra cá. Já é a segunda vez. Tou indo embora e sinto essa pressão de um mundo de possibilidades que eu tenho pra viver nesse lugar se diluindo. O trem começa a andar e constato uma atração magnética muito, muito forte. Viena invade meus poros dizendo, em coro, "fica".


Rascunho de um caderno antigo


Seus olhos evitaram os meus, como já é de costume entre nós dois. Mas o seu corpo me aceitou bem e me respondeu com amor. Em cada pequeno gesto, um pouco do que ficou.

Seu gosto já não é mais o mesmo, ficou claro que muita coisa mudou. Mas por baixo do toque, da barba e cabelos; por trás desse nosso olhar fugitivo que tanto evita o outro e de todas aquelas palavras não ditas, ainda tem você. E ainda tem eu.

Não encontramos nenhum nós, parece que o ele se perdeu, evaporou. Já até começamos a duvidar se um dia ele realmente existiu... Será mesmo? Mas eu avisto claramente, com aquela nitidez mil, um pouco do que poderia ter sido - e não foi.

Nessa fragilidade da vida, onde tudo se esparrama pelo chão num piscar e as possibilidades vão escorrendo pelos dedos ainda que fechemos as mãos com força, pois elas vão encontrando as brechas; os átomos se dividem, se adaptam; e passam, viajam, deslizam. E o que era não é mais. O que podia ser, idém. Já não pode mais.

Mas sempre fica alguma coisa no ar, naquela risada conhecida, com som de lar. Fica na barba embaraçada que arranhou outrora a minha pele - sensível que só ela, mas que adorava isso. Fica nos gestos confusos por insegurança e desejo - quase encabulados, mas intensos como nunca. Fica nos nossos olhares fugitivos que só confirmam que, realmente, muita coisa ficou. Cravada, tatuada, entre você e eu.

sexta-feira, 11 de maio de 2018

Onde não existe tempo

Entrei no plano da eternidade sem tempo
Como se o tempo tivesse subitamente se convertido
em algo infinito;
Como se eu tivesse perdido num instante,
de um segundo para outro,
a capacidade temporal
Não há mais passado, presente
ou futuro
O que existe é a quebra disso tudo,
a grande dor que me faz fazer coisas,
atuar, me mexer,
correr para qualquer direção;
me machucar, me exaurir, me punir,
me furtar:
qualquer dispêndio me interessa.

Procuro mentiras sinceras,
incessantemente
E elas estão por todo lado
Mas o problema sou eu,
que não acredito nelas
Nem por um segundo as permito como moldes
Nem por um segundo eterno
Ai, que bom seria, me abraçar a algo,
confiar que algo existe

Mato-me para não morrer
Para não perder o resquício de tudo o que já foi
Pago com o corpo, e pago caro

Deito entre os defuntos
Para ser poupada
Mas o terrorismo se mantém
Porque eu bem sei
Que ainda tenho a perder
Apesar de já me doer toda
Antes mesmo disso

Aqui onde não existe tempo
E o passado, o presente e o futuro coexistem
Aqui onde não se faz história
Onde não se conta nada
Onde eu não sei o que sinto
Onde pareço sentir tudo
Onde penso que perdi tanto
Sem nem saber o que ou para que
Servia
Sem entender a falta que isto que eu não conheço
(ou que não dou conta de representar)
me faz

Me dizem "pois doía"
Agora acabou, se supõe
Contam-me coisas estranhas
Palavras voam, correm
Por vezes, gritam

Meu corpo esfarela na cama
Minha atenção se esfarela quando leio
E onde moram os farelos? O que fazer com eles?

Parece-me que seria preciso juntar farelos, criar um corpo
Com que vigor? Com que pretexto?
Por onde começar? O que justifica?

Nego a realidade.
Até quando?
Será que em algum tempo ela não será
tão penosa?
Algo do qual eu precise tanto fugir?

Canso-me de ser louca
Canso-me de não reagir
de outra forma

Canso-me das minhas formas
Na verdade, sinto-me desforme
Deformada
Esfarelada
Voando aleatória
Piscando e entrando pelos olhos
Sujando os cômodos

Virei poeira aos olhos de
quase todos

Mas uns pingados
Dizem-me outra que não pó sujo

Dizem-me brilhante, vasta,
amor

E eu vejo um pó sujo
Que nem serve para chá
Sendo que nem gosto de chá

Sobrevôo
Espero não atrapalhar
Não grudar pelos cantos
Não furtar vista alheia
E, em algum canto por aí,
Simplesmente
Descansar
(a morte salva)

Carga


Carrego comigo imagens, cheiros, músicas, tardes, sustos, danças, conversas, apelos.

Voltando do trabalho, andando próxima à minha atual rua em direção à minha casa, passo em frente a um restaurante-hamburgueria. Observo-o, espaço bem humilde e, ao olhar para a sua parte interna, me assalta a imagem a pizzaria chinfrim que fomos por falta de opção no nosso último dia em Havana. Os restaurantes já estavam fechados, eu estava super rabugenta, indisposta e com um pouco de medo, eu acho. No fundo, acho que eu sabia em algum lugar que quando voltássemos todas as questões que me assombravam e me enfraqueciam na nossa relação também voltariam e, enfim, numa hora ou noutra, nós iríamos nos diluir.
Eu tinha medo, sentia frio; sentia-me sozinha. Sentimentos esses totalmente paradoxais naquele cenário de calor ardente, suor constante, companhia em tempo integral. Infelizmente, eu já estava cansada de saber que nós queríamos coisas diferentes. Me machuquei esse tempo todo para tentar te agradar, me aproximar, te tocar e, no fundo, o que eu queria mesmo - e sustentava a ilusão de que aconteceria - era te mudar. E isso é uma merda. Mas eu não me dava conta. Queria trocar sacrifícios: mudança por mudança, enquadramento por enquadramento. Que muita gente sobrevive assim, eu sei. Mas eu nunca quis só sobreviver. E hoje eu sei que não é papo de que eu nunca estou satisfeita, como você me dizia. Não é histeria, não se trata disso. Haviam muitas coisas importantes para mim que eu não via em você e vice-e-versa.
Para começar, o amor. Aquele que lava, transforma, movimenta. Éramos muito frágeis, sozinhos e como casal. Eu expunha a fragilidade, você buscava guardá-la a 7 chaves e, se possível, negá-la a maior parte do tempo, tanto quanto você suportasse. Narciso se afoga no espelho, e você?
É impressionante o quanto vivemos com alguém e, depois, para onde vamos? O nós desfaz nosso nó, nosso entrelaçado; a corda se desenlaça e a história vai para onde? Não tem filme, não tem registro o suficiente. Eu não queria esquecer. Queria elaborar até o limite da elaboração, guardar em caixas intocáveis. Não deixar evaporar.

"Ainda bem que a gente teve Cuba".


"Eu acho você uma pessoa genial, eu gosto de conversas com você sobre política, eu respeito as suas opiniões".


"Eu não vivo sem você".
"Nossos filhos serão lindos".
"Você está me matando".
"- Eu não consigo dizer.
- Mas por que? Me diz, estou preocupado.
- Porque eu te amo.
                          (tempo...)
- Você quer se separar?
                          (respiração profunda)
- Quero, quero, quero, quero...
                          (chorando muito)
sensação de loucura, 
de perder o chão,
de quase-morte".

"- Pode falar, eu sei que você me ama (...). Sei porque eu também te amo".

"Você me enganou, é assim que eu sinto. Eu me casei achando que a nossa vida seria uma e ela é outra. Você decidiu isso sozinha, sem me consultar e eu tive que respeitar. Me deixou no barco sozinho". 

"- Faz o seguinte? Nem volta pra casa, eu não quero te ver hoje.
- Você diz: pra casa que também é minha? 
- Se você vier, eu saio."

"Você precisa parar de se colocar em risco. Senão eu não vou namorar com você porque eu me preocupo, eu não vou dormir de preocupação".

"Eu tô cansado, me deixa em paz".

"O sonho dela é fazer uma viagem de trailer".

"Eu não quero fazer esforço, mas eu não quero te perder", diz o narcisista que eu amei.


Dividimos idas ao mercado, beijos em piscinas, mares, banhos, cinemas, camas, boates, igreja. Carrego comigo abraços, risos, apoio, presentes, tretas, brigas, socos na parede, nó na garganta, sexos, fissuras, apego, comemorações, viagens, medo, carinho, cartas e tanto mais.

É tanto que nem cabe. Nunca coube. Você sempre me deixou vazando, nunca pude suportar. 

Lembro do nosso quarto de hotel do casamento, de chegarmos lá depois da festa, de uber, chovendo. Exaustão. Então foi isso? Casados. Você estava feliz, mas parecia atuando um pouco ao mesmo tempo. A festa foi um momento feliz, apesar de estranho. Pareceu um filme. Tudo se encaixava. Entrei no banheiro enjoada e ri de/para mim mesma: "que articuladora de história que eu sou. Fiz um romance da minha vida. Escrevi com meu corpo, minhas horas, minhas lágrimas, minha força e minha sujeição. Corpo encouraçado X vibrátil. Medo constante. 

Eu queria ser a bailarina que sempre quis. Mas eu danço como a louca que eu sou.

Cura

do latim cura = "ato de cuidar"


Ela me ama devagarinho, 
Sem pressa, com presença
Olha, escuta, acaricia
Diz pouco, mas preciso
Me faz flutuar, sair de mim,
vislumbrar mundos impossíveis
até que talvez venham a ser possíveis,
criados pelo nosso amor

Me sinto criando a cada dia,
Sem cartilha, sem certeza,
Cheia de camadas, 
Histórias,
Perdida entre seus cachos, pele, olhos, beijos 
e delicadeza
Vazando, flanando
Púrpura

Queria te escrever em toda a superfície da minha pele
Com símbolos, palavras, danças, músicas
Tatuar você em tudo, te inscrever, marcar minha imagem
Para escancarar o que eu sinto por dentro
Alguém curada pelo seu amor, cuidado, escuta
Tecendo em mim o amor mais puro que há:
A vida vale a pena com você 

O que ficou pelo caminho?



Joguei da janela do 7o andar
Pedaços inteiros repletos de história
Fotografias, móveis, frases e sonhos
Deixei a dor pelo corredor
E, dentro dos armários,
Tímida, oca, sem voz
Fui seguindo, erguendo a cabeça flutuante
Que pairava no ar,
Sem pescoço.
Repito e repito os vestígios de pedaços
Buscando historicizar este tempo sem roteiro,
Esta história que furtei de mim

Pelo caminho, fiquei eu
Aquela em mim amada e odiada
A mãe que eu fui para amim
Ela ficou, no corredor, nos armários e nos cacos
que caíram da janela

E eu, fiquei orfã de mim