segunda-feira, 6 de novembro de 2017

aconchego


cê deita e se aconchega
entre meu ombro, seio e clavícula
- dorme plena,
sonhando -
observo a cena e percebo
que eu também estou sonhando
sem nem

cair
no sono

sinestesia romântica


minhas mãos passeiam nos seus dedos,
unhas, palma, pulso
(enquanto a outra faz cafuné nos seus cabelos)

a ponta do meu dedo se perde e se acha
infinitas vezes
nada me importa ali,
só o cintilar do toque que descobre e reconhece
você, mais uma vez
(over and over again)

sinto um gosto na boca,
tudo é sinestésico
sinto o gosto do seu cheiro e textura
(misturados com pitadas da sua voz)

nossos sentidos se confundem entre si
(é tudo aquático)
e eu me recuso a ser somente eu
(and so do you)

e, assim,
nossos corpos, aquáticos como o desejo,
se recriam um no outro
incessantemente

(in)fertilidade



distraída,
sou transportada pra cuba com usted
volta e meia

cores, ruazelas, música e daiquiri
bike, risos, sol e cervezas
beijos, sexo, olhares e promessas
entre cancháncharas que não acabavam mais
(sempre tinha espaço para mais uma dose)

você, feliz, como eu não via há tanto tempo
as brigas se esvaíram, não tinham mais razão de ser
éramos parceiros e amigos
(e o sexo seguia quente)

mas tanta coisa se quebrara
antes disso, bem antes
não sei bem quando ou como
sei que me sentia com os pedaços colados
um no outro
após as quedas

porcelana se cola, mas não volta a ser a mesma
vidro mal se cola, pois quebra em pedaços muy pequetitos
e eu, minha matéria era colante?
após as quebras, ficava como?

eu sabia que os pedaços onde eu quebrei-me
não eram restauráveis
quebrei lá no fundo, não foi na superfície
e a nossa velha discordância se fez presente aqui:
ao contrário de você,
não acredito em tapetes;
embaixo-do-tapete não me cura
de nada

demorei a assumir essa falha maquínica
mas as minhas máquinas desejantes viviam me dando porrada
e a angústia, me esfaqueava
de tempos em tempos

eu sentia que cê olhava e não me via
e, às vezes, nem isso
nunca entendi bem o que cê queria
de mim
(ou melhor, comigo)

cê me disse várias vezes,
eu repetia a pergunta
não convencida pelas respostas quocê me dava

sua presença me era rarefeita
via você indo pra longe o tempo todo
ficar, que é bom, era raro

mais tarde, nos últimos tempos,
quando cê ficava, eu ia
era triste de ver
(eu já estava sem reparos,
mas não queria
nos des-
    fa
-zer)

cê era lindo, afinal,
bom moço, diriam
(eu mesma diria)
parceiro e família
(mais do que a minha própria)
mas e aí?

eu sabia que eu não podia existir ali
precisava viver colando pedaços, migalhas, espaços
quanta energia!
vivia com medo da próxima queda,
da próxima quebra

além disso, vivia tendo que podar meus ramos
que procê eram de ervas daninhas
e eram pragas na sua floresta

podar machuca;
podar o que se ama, mais ainda
e eu podava meus ramos, que pra mim não eram pragas
eram o contrário, as tortezas que eu amava em mim

talvez tenha faltado confiança na torteza alheia
acho que nossas tortezas
- tudo aquilo que saía do script -
incomodava muito o outro
(as suas também)

a gente tentou higienizar a relação,
já que confiança na torteza não existia
"evitar danos" era um lema;
"nunca esqueça, gabi, nunca se colocar em risco"
- eu mesma me repetia

mas segurança e amor me são distantes,
enquanto pra você parecem ser sinônimos

não existe errado nem certo,
é claro

mas eu nunca amei pela escrita em linhas certas;
eu amo pelos borrados, pelas tortezas
e mesmo com você foi assim

no início, via tantas tortezas
queria sublinhá-las, colocá-las em negrito
num caldeirão imenso, pra que nascesse coisas loucas dali
inesperadas
(um livro, um grito, um abraço inesperado,
um sorriso sincero e desavisado
ou qualquer coisa outra, sua
que me tirasse do eixo)

queria ver-te vivo
pelas borrados
sambando de tortezas
(eu via tanta potência)

aos poucos, cê me disse pra não mexer
"fica imóvel, tá funcionando"
em time que tá ganhando não se mexe, é o que dizem

mas sem mexer
apodrece

aos poucos, senti que você valorizava linhas retas
e gostava quando eu escrevia sem rasura
sem borrar

eu tentava fazer, podando lá e cá
mas as tortezas foram ficando de lado
(confesso, até me esqueci delas num certo momento)

no entanto, as máquinas desejantes gritaram
me dizendo que desejo é indomável
que a vida é movimento
que amar é risco
pois engloba o risco de perder
se os movimentos cessarem
ou, existindo, não se conjugarem

eram tantos riscos e poréns
num instagram impecável
e eu tinha em mim
uma parte que via tudo assim
cintilante,
que nem as águas da playa pilar

eu não queria colonizar suas tortezas
de volta
mas eu sabia que a gente não tava se encontrando nas nossas
nas tortezas permitidas

as podadas, então, nem se fala
do quanto não deixávamos de fazer
e ia pra conta do outro
(e a conta acumulava,
seguia ganhando zeros)

talvez cê nunca entenda das minhas tortezas
e talvez seja justamente por isso
que eu não me sentia amada
(naquilo que me é amável em mim e, portanto,
me é fértil)

esculturas esfareláveis


nossas imagens me visitam
entre a vigília e o sono
- o estado regressivo de todas as noites -

em forma de fotos, vídeos, cheiros, sons e texturas
vivência completa

sou transmutada ao que éramos
aos nossos olhares, conversas, abraços;
à sua pele, ao seu toque, ao afeto..

não é fácil
o sabor é de um doce amargo

fico dividida entre tentar reter o que os meus poros mantém de nós
e desfazer os nós
pra que voemos ambos, desatados
enquanto as memórias caem, fragéis
esfarelando-se

daí, então,
as esculturas fotografadas
estacionadas no tempo
perderão até o sentido
quem de nós vai entender?

os farelos são péssimos contadores de história;
afinal, só os corpos e os sentidos sabem contar.

Por uma flor; por um amor



Te amar é plantar flor em pleno oceano. Do fundo à superfície, vou e volto. Nado, pulo, corro, prendo o ar. Em água, danço; desafio todas as leis que conheci até então - tanto aquelas que me contaram, quanto as que eu mesma criei. Busco um equilíbrio, um tino, um porto, um eixo - mesmo sabendo que amar, muitas vezes, é aceitar ser sem eixo e abraçar a beleza do fundo do mar.

Mas o fundo do mar assusta. Não foram à toa as lendas sobre os seres mitológicos diversos que habitariam esse espaço líquido do qual falamos. Isso fora as criaturas medonhas conhecidas e desconhecidas que de fato vivem nas profundezas. Por vezes, o medo me atormenta, pois me sei pequena diante de oceanos e e os conheço como repletos de perigos e de mistérios.

Eles são imprevisíveis e suas profundezas não tocam em terra firme, estão deveras distantes do concreto. São aquáticas, fluidas, escuras e geladas, embora se mantenham cheias de consistência, pois sabemos que amanhã os oceanos ainda estarão aí erguidos de gotas d'água do mar enganchadas umas nas umas, tocando a terra e o ar, em diálogo com tudo e todos. Superfícies líquidas entre sólido e gás. Água que evapora e se transmuta em chuva, num ciclo vital.  O lugar da troca por excelência, um estado de movimento que se vê.

Como as pétalas do amor se mantém vivas e ficam cada vez mais lindas em meio a ondas e tormentas naturais do oceano, eu não sei. Só sei que o fazem: simultaneamente, se mantém e se transformam. Se edificam aquaticamente.

Com nossos corpos, construímos histórias aquáticas. Dispensamos o firme, mas sabemos da consistência da água. Ela nos relaxa, vitaliza e libera. A água não prende, ela banha e salva. So does our love.

Nós duas, pequenas esponjas que se alimentam pelos poros infinitos típicos daqueles que se abrem para o amor, absorvemos e retemos o que conseguimos desse amor oceânico. Não nos desfarelamos nele, virando migalhas ou até mesmo pó; nós nos mantemos esponjas, mas é quando nos banhamos do oceano que ganhamos sentido. O amor vem, então, nos dar sentido e preenchimento a partir de um irracional. Quem disse que flores não resistem a oceanos?

No final das contas, amar é sempre plantar flores raras e terrestres com pinceladas de presenças e ausências, mas sempre bem longe da terra. É preciso sair do quintal de casa e mergulhar nas profundezas do encontro. Afinal, é só com o outro que fazemos lar; o lar vem com o laço. Ao nos depararmos com as profundezas portadoras de mistérios insolúveis, é preciso ter coragem para ver e apreender que, para além do risco, nelas habitam o amor - ou, melhor dizendo, o potencial criador. Os amantes nadam, piruetam e veem na aposta mais do que pura adrenalina. A aposta é um encontro entre dois num labirinto aquático sem fim. Do encontro, nascem e crescem flores terrestres fora de seu habitat natural, únicas e irrepetíveis. Penso alto e meus dedos acabam escrevendo: "Pobres dos covardes, aqueles que não amam."

Então, a imagem de seus olhinhos brilhantes dirigidos a mim não me sai da cabeça. Me delicio buscando fotografias mentais e sensórias e um arrepio me liga inteira a você, à distância.

Sigo plantando enquanto nado e mergulho e o oceano já me é muito mais irresistível e apaixonante do que amedrontador e misterioso.

Impossível eu me cansar do nosso oceano. O oceano é vasto e surpreendente e eu o sinto por todos os lados, formas e sabores. E o amor só cresce, infinito.

Esponjemo-nos mais e mais que o amor há de continuar vindo, banhando-nos.

domingo, 5 de novembro de 2017

amor vital

de repente
quando dizem por aí "amor da vida"
querem dizer de um amor que dá vida
e, então, meu bem, 
o meu é você

elétrons


cê me é seda
corpo todo,
(meu e seu)
reviro os olhinhos
involuntariamente
pas pressée
pois, como já dizia o ditado,
a pressa é inimiga da gente

tomo ar,
tomo tempo e deito,
(voando)
me sinto vesga
tudo se condensa
fora e dentro de mim

pele sob pele,
beijo sob língua
olhos sob pés
dente sob dedo
cheiro sob órgãos
tudo meu com tudo seu
ao mesmo tempo

nossos cantos, partes e pedaços se abraçam
desenham, dançam,
se beijam em tudo
quina com quina;
eu vibro toda,
fecho os olhos
e te sinto

(fumo um beck)
respiro, suspensa
penso se tá cedo
ou tarde 
mas quando vi, 
tô em vênus,
bem longe da Terra

por aqui,
o tempo é outro,
nosso e oceânico
com muito mais de
mil e uma cores

o tempo se estica,
se alonga,
se expande e se contrai;
a gente mia
late morde
lambe
"not too late",
I beg you

then you say 
mornin'
- anunciando a volta pra Terra -
vejo cores remanescentes,
elas me aquecem
(profetizando que o amor não se esvai em terra)
abro o olho 
cê tá aqui
eu mio,
cê mia

elétricas,
a gente se dá
bom dia

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

nosso mundo, veludo


no universo de amores
mudos e estéreis 
ela é voz doce, 
aveludada,
voz-corpo e voz-alma

me olha e me desperta
não diz nada
e sinto tudo
sentimos tudo
dos pés à cabeça

e, num beijo,
dou a volta ao mundo umas 40 vezes
e a gente flui e flutua 

porcos-espinhos reais


ele tem cheiro de príncipe
(o cheiro é muito bom, de fato)
mas eu nunca fui afeita a eles

mesmo assim, amei
apesar de um príncipe;
não amei por isso,
bem pelo contrário

amei pela bagunça organizada
pela parceria que me desafiava a fazer mais
pelo carinho louco e mordaz

amei pela segurança insegura
pela corda bamba
pela gangorra e pelo trampolim

desenhei sonhos e futuros com as palavras
só pra ele,
palavras que nunca existiram pra mim
nem antes nem depois

só existiam em instantes
diante dos olhos azuis do príncipe que eu amei
(apesar de príncipe)

depois eu nem me reconhecia
era tudo tão estranho,
me dava uma tonteira

por vezes, dor de cabeça,
por outras, aperto no peito

eu nem sabia direito o porquê
só sabia que eu e o príncipe éramos de 2 galáxias diferentes
2 dimensões, talvez

por vezes, a gente se tocava
circulava juntos

mas éramos como que 2 porco-espinhos juntos
tentando se abraçar e se esquentar
pra se proteger do mundo frio

schopenhauer pontuou esse dilema dos animaizinhos
e depois freud usou a mesma anedota pra levantar a seguinte questão:
quanta intimidade nós podemos suportar?

- perto demais machuca, algum de nós dizia
enquanto os espinhos do outro furavam;
- longe demais congela, eu pensava
- longe demais congela, eu negava
- longe demais congela, eu sorria

(...)

e ele,
é príncipe ou porco-espinho como eu?
ih, nem sei

nem tão longe e nem tão perto,
sigo tentando


duro

parece que foi tudo um filme
um filme bom, com drama e cores
que se passava em alguma cidade chuvosa
talvez lyon
no inverno

por vezes parecia ser um filme longo,
por outras soava curto;
pairava no ar a grande dúvida:
eles se conhecem como jamais ninguém os conheceu
ou não se conhecem at all?
os 2 extremos oscilavam, como que numa dança
nem os extremos decidiam-se se queriam sê-lo e impor-se sozinhos
subtraindo o outro;
nem eles sabiam se gostavam mais de si ou de seu oposto

tivemos risos
sexo palavras cheias pulsantes e mágicas
abraços palco malas voos
olhares mãos cheiros
ideias ouvidos força
cafuné e até
flocos
de
certeza

eu quis tanto,
amei tanto,
e em certo ponto
eu também queria a paz
que nem você me ensinou

(...)

mas eu não tinha paz
nem sei se eu conheço isso
visitei a sensação por vezes,
fugazmente

me parece até com uma leveza diante da morte,
da falta de movimento,
da rotina e do tédio que sitia as almas

não precisava bater assim
como batia pra mim,
mas paz em solidão nem sempre é paz
(às vezes a gente se engana)

a gente esquece que paz é a nossa paz
e que ela pode vir em qualquer canto:
meio a um show,
uma maratona,
uma leitura
ou uma trepada

- ah, claro, e também ficando em casa
dormindinho
assistindo netflix
desconectados das relações
na famosa preguiça

é que paz pode ser menos aquilo que você me ensinou
de não ser incomodado
(ou tocado?)
e mais o feeling de estar onde se quer;

naquelas horas que,
dada a conexão,
a gente sabe que não há mais nada
nenhum outro lugar amável naquele momento
nenhuma outra pessoa bonita e interessante nos instantes do encontro
nenhum outro ângulo tão aveludado
nenhum beijo tão puro
nenhuma conversa tão gostosa

é que
se a gente não tivesse ali
nada daquilo teria se dado
seria nada, vácuo

e, após amarmos,
é duro pensar na falta do que se ama
na sua não existência

põe duro nisso,
não é mesmo?