sábado, 27 de abril de 2013

quebra-cabeça

caiu lá de cima do armário
da última estante
aquele quebra-cabeça antigo
com as suas muitas peças
umas cem, talvez duzentas

e as peças caíram todas no chão 
e, como num passe de mágica, 
elas todas se atraíram 
como se ímãs as impulsionassem
a se juntar
assim,
subitamente

se olharam,
acariciaram-se
e se encaixaram
engrenando-se
e ajustando-se
ao som do maracatu que tocava ao fundo

e das peças juntas veio um clarão
com gosto bem forte
de epifania

e elas, tão incompreendidas quando sós,
criaram forma e sentido entrelaçadas

e cada uma já tem um pouco da outra em si
nesse código genético tão louco 

eu sou um pouco de cada um de vocês, amigos
e vocês tem um quê bem grande de mim
e cada um de nós, 
as luzes, ruas e histórias dessa cidade
dessa ville lumière amada

fincamos amor de vieux lyon ao tête d'or
da guillotière à part-dieu
da perrache ao bron
fizemos lyon transbordar com nosso jeitinho brasileiro

e ela, igualmente
se fincou na gente
e em toda a gente 
que por aqui passa
de peito aberto,
com fala doce
e cheio de pétalas de rosa no olhar

e ainda que chutem essa nossa junção,
nosso quebra-cabeça repentino,
já tem tanto de vocês em mim
que não tem chute que afaste 
essa fluidez apaixonante
e colorida que só ela


segunda-feira, 8 de abril de 2013

Falta de mim

Tem dias que a gente levanta com o pé esquerdo.

Hoje foi pior. Antes mesmo de eu sair da cama, já estava com essa sensação. O telefone tocou e era uma das várias pessoas que eu não estava afim de encontrar ou de conversar hoje.

Eu sei que essa postura parece mal humorada demais, antissocial demais, mas hoje eu não me importo. No fundo, tem tantos dias que eu não estou afim de ver ninguém e mesmo assim cedo, faço a minha parte, convivendo com uma série de pessoas as quais eu desprezo, persistindo num curso que eu já descobri não ser a minha praia, requebrando para lidar com as decepções e traumas familiares, dando um jeito de me adaptar aos outros sempre, indo nos almoços, escrevendo a tal da carta que eles querem ler, falando o que eles querem ouvir. "A faculdade vai ótima, obrigada". "É, agora falta pouco". "Não, não estou namorando, mas a vida é assim mesmo, Vó, daqui a pouco aparece alguém que valha a pena".

Façam o favor: Por hoje, não me encham. Acho que mereço.

Atendi o telefone contrariada, me armando de meias palavras pra que aquilo durasse o mínimo possível.

Aí me libertei - nem que seja só por 24h.

Desliguei o celular e o deixei em cima da cama. Coloquei meu biquíni  um vestidinho, peguei um livro e segui para a praia. Ufa!

Peguei uma cadeira - o que eu nunca faço, mas hoje eu tava afim, ué. Passei mais filtro solar e abri o tal do livro. Li, li, li, como não fazia há tempos.

Quando eu vi, já tinha lido umas 150 páginas e já eram quase 18h, mas eu ainda precisava de tempo, do meu tempo. Como diria Lenine, meu corpo estava não só precisando de calma, mas também de alma, contato com minha própria alma.

Isso me fez lembrar que outro dia um grande amigo meu estava me contando o quanto ficou chocado com uma história de um amigo dele alemão que está passando uns tempos aqui pelo Rio. O tal do amigo alemão veio passar 3 meses por aqui, mas não aguenta ficar sozinho um minuto. Sai fazendo uma série de amigos pela internet e está sobrevivendo por aqui levando uma vida promíscua pra afogar a carência - não é nem suprir, né? Promiscuidade não supre carência.

O alemão então comprou passagem, reservou hotel e sarapatel para ir pro Recife. Planejava ficar uma semana. Ligou para o meu amigo para se informar sobre o ônibus que ele poderia pegar pra ir ao aeroporto. E foi. No entanto, em cima da hora, amarelou, não embarcou. Meu amigo, dias depois, perguntou o que fez ele não embarcar, visto que já tinha reservado tudo e já estava no aeroporto. Peguntou se, por acaso, ele achava que o Nordeste pudesse ser perigoso demais ou algo do gênero. Mas não era isso. O alemão estava com medo de ficar sozinho. "1 semana, achei que eu fosse ficar sozinho demais".

Caramba, que tipo de criação essas pessoas tiveram? O cara me vem pro Brasil e tem medo de passar alguns dias sozinho?

Saí da praia, jantei num dos meus restaurantes preferidos, dei uma passada no cinema Estação do lado da minha casa pra ver se tinha alguma coisa que prestasse - e tinha! Fui ao cinema, tomei coca-cola e comi pipoca cheia de sal - sim, eu não estou nem aí pras minhas artérias entupidas hoje, obrigada - e, apesar disso, voltei pra casa uns 5 kg mais leve. Cheguei e ainda peguei meu tapetinho de yoga pra fazer um super alongamento e dormir melhor.

Tomei um banho delicioso e decidi só ver o celular e a internet amanhã, quero o dia inteiro de folga, ainda não tive tempo suficiente comigo mesma... Ça n'a pas suffit.

Ai, que saudades que eu tava sentindo de mim!







trop tard



as palavras
esse bocado de letras juntinhas formando um significado,
de que me servem as tuas, tão rasas e vazias?
tão frias e tardias,
já se foi o tempo que elas podiam me tocar


domingo, 7 de abril de 2013

Saudade



Admito, foi difícil vir. Mais do que eu deixei transparecer. Bem mais. Coloquei na mala um pouquinho de cada um que amo. Sentei em cima porque tava lotada demais e nem sei como eu consegui fechá-la. Mas ça ne suffit pas, tem dias que dá aquela saudade... Fica até difícil respirar.

Deixei meu quarto ainda desarrumado. Meus 2 gatos, dengosos, pedindo carinho, passeando entre minhas pernas e soltando "miaus" ininterruptos.

Deixei a mãe despreparada, com o coração na mão e preocupada.

Deixei um sonho pela metade; a profissão, joguei aos leões. Vim em busca de um rumo, do jeito que tava não dava mais.

Deixei aquele homão que me apareceu meses antes. Dei um beijo apaixonado, catei minhas coisas todas e deixei ele de cueca, enrolado nos lençóis, dizendo com os lábios pra eu vir e me apoiando e com o olhar, pra eu ficar.

E fico me perguntando até que ponto aquilo que dizem de que é mais difícil pra quem fica é verdade.

É que eu achei que ia encontrar por aqui um bocado de vocês no brilho dos olhos de quem eu viesse a conhecer. Claro que eu não esperava encontrar com pessoas idênticas a vocês, mas sim aquele pouquinho, coisa boba, que me fez amar tanto vocês. Talvez um pouco do primo no sorriso de um colega ou o mesmo espirro da minha mãe num desconhecido que sentou do meu lado no café. Ou então a rapidez na fala daquela minha amiga querida saindo da boca de um francês engraçado que cruzaria o meu caminho. Ou até mesmo o jeito de vestir do charmant, o cafuné do melhor amigo ou a comida da vovó. O perfume do pai também servia. Ou o riso frouxo do irmão mais novo. Um suspiro que fosse de vocês já ia confortar o meu coração. Saber que tem gente tão apaixonante assim ia ajudar muito, é só isso que eu queria.

Mas não tem vocês em nada. Apenas fotos vazias no quadro aqui da frente. O quarto tá mais vazio do que nunca e nem me preocupei em acender as luzes. What's the point?

Acreditam que joguei umas roupas no chão pra dar a impressão de que ele tá mais cheio? Ok, eu admito, não foi só por isso, eu devo ser a virginiana mais caótica que existe. Mas aqui eu adquiri o hábito de arrumar tudo logo que eu entro no quarto e agora perdi a vontade.

Ei, isso tudo é pra dizer que hoje deu saudade.



resquícios

acordei no meio da noite
numa festa louca, o quarto tava lotado

os bêbados emaconhados trocavam beijos,
distribuíam riso solto,
arriscavam passos de dança entre a bagunça
(afastaram aos chutes os casacos e penduricalhos pra abrir a pista)

e eu fingi que tava dormindo,
não dei um pio sequer. 

é que tou cansada de interagir com esse bando
querendo curar minha falta de você

e aí eu fiquei horas 
ignorando aquela muvuca toda 
e degustando em pensamento
o bocado que ainda tenho de você

me viam flashs da sua barba mal feita arranhando meu corpo,
de você abrindo a porta, me puxando pela cintura e me dando aquele abraço forte
como se tivessem meses que a gente não se via 
mesmo que tivéssemos nos visto há 2 dias...

flashs da sua meia dúzia de cabelos brancos que tanto te preocupam
e do seu sorriso de canto de boca quando vai começar 
uma daquelas conversas alucinógenas que tanto me intrigam 

flashs de você, de você, de você...

e aí a doida que tava achando que conseguia sambar naquele estado
caiu em cima de mim
e te levou embora
mais uma vez.


domingo, 10 de fevereiro de 2013

cravo, canela et finesse



não é gabriela,
mas é quase
e também sou cravo e canela
mas com uma pitada
de finesse
au même temps,
un peu à la française

saio enfeitando o meu mundo
com vários tons de vermelho
ora pintando os muros
e sambando nas esquinas
ora tomando um vin rouge
e ouvindo um jazzinho
bem apropriado

o que eu não gosto é de cinza
- nenhum dos cinquenta tons -
pra mim, existe o vermelho, o preto e o branco
et ça suffit

only lyon





a neve lá fora
desobediente que só ela 
não deu uma trégua essa semana
uminha sequer
tá que nem criança levada
fofinha, mas não vale nada
é rebelde que dói

mesmo assim, 
vesti o manteau e sai porta afora
pra me perder por tuas ruazelas 
e namorar cada janela antiga
cada escadinha escondida
e as cores dos prédinhos de vieux lyon

queria é fazer confusão
com as tuas pracinhas
com as tuas igrejas
e até com os teus franceses

mas. ao invés disso, lyon
fizestes o oposto avec moi
teu guignol me deu a mão
e entre teus traboules
teus clubes de jazz e teus bouchons
enfeitiçada por 
teu aroma, sabor, cor e tom
acabei me encontrando

- ei, toi, me belisca?
ora, nem sei se cidade belisca
mas se bem.. qu'inda bem
quem disse que eu quero acordar?








terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

meu do teu

 
 
Cê invadiu meu sono
já quase de manhãzinha
 
E foi tão leve
e colorido
nele,
eu transpirava laranja
e você, azul
a sala, tava agradabilíssima
mas da cor de sempre

Cê colocou aquele cd que eu
tanto gosto
chegou perto, me deu um beijo
de esquimó
e foi pra cozinha pegar o número
daquela pizzaria que amamos
enquanto eu fiquei escolhendo o filme
de hoje à noite
na télé

Música boa,
aquele som de risada
e nossa cumplicidade

É que tantas milhas de distância
tem transmutado nós dois
de uma química pra outra
e nem tinha como ser diferente
e eu tou numa boa por aqui
e tou certa que você, idém
 
Mas cê inda não sai da minha cabeça
e inda tem prazer rondando em tudo
e não tem um sonho que eu tenha contigo
dormindo ou acordada
que não me deixe molhada
e desperte minhas saudades
que eu pensava já terem adormecido,
quietinhas
 
E já cheguei mesmo
a achar teu cheiro por aqui
bem no travesseiro
e um fio de cabelo até
cê credita?
 
Deve ter vindo em mim:
assim,
um monte de pedacinho
teu
e agora meus
já que te trazer inteiro
malheureusement
não deu

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

nuca

acordei por agora
a um oceano de distância
mas repleta de você
em cada pedacinho meu
e minha nuca ainda guarda alguns resquícios
avermelhados
de seus beijos e do atrito com a sua barba mal feita
- é, eu fico vermelha à toa
quem mandou ser branquinha assim?

nossa bossa



essa bossa nova ao fundo
só me lembra você me olhando
enquanto eu analisava a sua coleção de cds
e separava um ou outro
já animada pra copiar
ali na sala

você, com aquela sua camisa vermelha
e listrada
sorrindo pra mim, pleno
acho que nunca te vi tão bonito

ah! e essa camisa foi a mesma que
eu usei daquela última vez
pra abrir a porta pra você
que vinha da padaria
- tinha ido comprar pão fresco pra gente -

e
além do pão
me trouxe um serenata de amor
de sobremesa
do qual eu nem quis saber
já que me deliciar com você
sempre foi muito melhor
sobre a mesa ou não

então deixamos os pães pela metade ainda
você se lembra?
e ali na cozinha mesmo a gente se amou

lembro que eu tava passando requeijão no pão
e você sorriu pra mim e se levantou
pra pegar o suco de laranja
mas no caminho se achegou e beijou minha nuca

e nada mais de pão, de requeijão ou de suco
nada mais de camisa vermelha listrada

só eu e você
e o chão frio da cozinha
que em poucos segundos
já fervia com a gente