sexta-feira, 6 de novembro de 2015

estrangeiros



é aquele velho papo
mesmo falando outra língua,
é só tu que me entende

cê chega pra mim e me desdiz o tempo todo
tanto com a boca quanto com o corpo
ás vezes só pra me atazanar

mas quando cê quer, cê sabe o que eu digo
e me pega e me sente e me come de um jeito
só teu, só meu, só nosso

e então tudo que eu queria dizer
se mostra desdizível
mas eu sei que cê entende
e, mais que isso,
que cê sente
esse choque quase místico entre nós 2

de resto, é tudo dúvida
um dia, eu quero
noutro, nem tanto
num terceiro, já mudei todos os planos
e num quarto eu prefiro nem esboçar

o que fica sempre é o seu abraço,
nosso laço,
com cheiro e gosto de lar.

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

Travessia

eu, que sempre fui toda do avesso,
metendo os pés pelas mãos por onde eu
passava
de repente me vi assim,
enamorada
bem do jeito que mandam os manuais
passados uns meses,
juntamos as escovas de dente
os nossos pés embaixo da coberta
e um bando de lembranças dessas nossas vidas passadas
de antes de um ter cruzado o caminho do outro
esses que agora passavam a caminhar juntos
lado a lado

Sobre dois e um só corpo


Para o meu Inho, a quem recrio constantemente


Caía uma chuva fina. Maria abre os olhos lentamente, desadormecendo por uma dor de cabeça, como na maioria de seus dias. Enrola-se e desenrola-se na cama por mais uns minutinhos pensando se deve se levantar de vez ou persistir mais um tanto e aplicar-se para dormir um pouco mais.

Decide levantar-se e vai até o espelho, como lhe é de costume. Analisa suas novas marcas de expressão, faz caras e bocas para si e estranha todos os outros que habitam nela e que ela ainda não tem familiaridade com. Julga o quanto e no que se parece e se diferencia dos seus pais. 

Nos últimos tempos, Maria tem pensado muito em sua mãe e não entende bem o porquê . A mãe de Maria, Clara, morrera há alguns muitos anos num acidente de carro. Na época, a filha tinha 28 anos. As duas tinham o que se convencionou chamar de relação muito próxima. Conforme os manuais sociais, mantinham uma proximidade amigável, se encontrando semanalmente para um almoço, um cinema ou um café que fosse. Clara e Maria trabalhavam muito e viviam cercadas de amigos, mas sempre encontravam um tempinho para se ver. De início, era Clara quem mais procurava Maria e tentava combinar encontros, mas nos seus últimos anos de vida tornou-se mais contida em relação à filha e buscava respeitar mais o espaço da mesma. Então, Maria quem tinha de telefonar e mandar mensagens para que elas se vissem.

Clara queria muito ser avó e sempre puxava o assunto, perguntando e pressionando a filha, que não queria ser mãe. Ao menos, não ainda, não por enquanto. Maria não gostava de pensar a médio e longo prazo; nunca teve por hábito fazer planos longínquos. A priori, não tinha nada contra isso, apenas não via muito sentido. Sempre gostou muito de dançar e é assim que via a vida: como uma bela e ritmada dança, com melancólicos e necessários tropeços pelo caminho. Para ela, a dança, assim como a vida, não poderia ser planejada a partir do último ato ou a partir de seus clímax e apogeus, mas sim passo a passo, conforme às circunstâncias e os demais dançarinos que faziam parte de cada ato. 

Clara, ao contrário, sempre viveu movida a planos e objetivos longínquos. Era por eles que ela se levantava a cada dia. O que ela não sabia é que a meta que perseguimos é sempre velada. Um jovem que ambiciona o poder e a fama, por exemplo, não tem ideia alguma do que estes são e tampouco uma mulher que deseja ser mãe. O que dá rumo aos nossos caminhos e condutas sempre nos é desconhecido. Por mais que nos planejemos, não sabemos como seremos quando atingirmos o nosso dito objetivo e tudo que há por trás dele.

Percebendo que a filha pensava de forma quase oposta à ela e entendendo que a mesma não seria mãe nos próximos anos, Clara começou a questionar-se se conhecia ao menos algo de sua filha e o vazio que tomou conta dela após esse questionamento a apavorou. 

— Como pode eu, que pari, criei e acompanhei a minha filha ao longo de todos esses anos, simplesmente não saber nada dela? - perguntava-se Clara, assustada com essa possibilidade. 

Assim, resolveu conter-se. Afogada numa melancolia quase trágica, se continha em fazer perguntas e dar sugestões. Esperava, talvez, como que num passe de mágica, que a filha se abrisse para ela e que ela, enfim, pudesse conhecê-la e inscrever-se um pouco em sua carne para que, em alguma medida, compartilhassem um corpo da mesma forma que haviam compartilhado ao longo da gestação. Fora apenas lá que as duas estiveram efetivamente conectadas e agora Clara percebia isso. O que não sabia ao certo era se realmente estava pronta para se conectar com Maria, abrindo-se para um universo completamente novo, abrindo-se para um outro  outro esse que não era qualquer outro, mas sua primogênita, nascida dela e acalentada por ela ao longo de longuíssimos anos. 

Maria, por sua vez, não se incomodava com essa falta de conexão; simplesmente, não via como ser diferente e nem ansiava por isso. Poderíamos dizer que ela até gostava dessa distância. Para ela, bastava ver a sua mãe semanalmente e religiosamente, ainda que nenhum encontro verdadeiro se desse nesses cafés, almoços e cinemas. 

Maria acreditava gostar de ser solitária, mas gostava ainda mais quando conhecia alguém e daquele reunião de corpos e ideias nascesse um encontro de outra natureza - para os que acreditam, talvez uma confluência de almas. Ela não sabia no que acreditava, mas percebia que, por raras vezes, sentia a inscrição do outro em sua carne e vice-e-versa, como se fossem um só. Isso se deu com amantes passados, com mestres e amigos e ela sabia que esses eram os apogeus de sua dança vital. Talvez, por isso, não gostasse de fazer planos para si mesma. Sabia que os verdadeiros encontros não podem ser planejados, simplesmente acontecem. 

Clara nunca teve um encontro. Nasceu, cresceu, casou-se, procriou, trabalhou, tentou e morreu. Tentou ter esse encontro com a filha, sabia que ela tinha alguma coisa que nunca tivera. Maria, por sua vez, dançava; dançava por saber que as melhores coisas da vida não abriam espaço para artificialidades.

Após a morte de Clara, Maria sofreu. Tombou melancolicamente por um tempo até encontrar forças e compasso adequado para levantar-se e voltar a dançar. Terminou um ato e começou outro, mas não sabia bem o porquê: o que tinha mudado verdadeiramente?

Nos últimos dias, Maria tem pensado muito na mãe e não sabe o motivo. O curioso é que as lembranças dos cafés, almoços e cinemas dos últimos anos de sua mãe estão se esvaindo aos poucos e as memórias que mais se apossam dela são as memórias de momentos que não viveram. Possíveis conversas e viagens, brigas e abraços, olhares e risadas: tudo aquilo que não aconteceu, mas poderia muito bem ter acontecido. Por vezes, Maria fica até em dúvida se alguma de suas invenções foi real ou não. Finalmente, percebe que isso não importa, pois enquanto ela estiver viva, pode fazer e refazer a história das duas; reinventar-se a si mesma e também à mãe que teve e a mulher que Clara foi. 

A presença física de Clara contava muito menos do que pensava Maria. O que importava mais era o traço brilhante e mágico que ela havia imprimido em sua vida fortuitamente, sem intenção, e o qual ninguém poderia tirar. Antes de ir, pôde entregar à Maria o poder da reinvenção e da criatividade, deixando para ela o dom e o plano longínquo - por que não? - de recriar o que não tiveram em vida, mas poderiam ter tido, já que o amor, esse sim, foi real. 

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

gosto de fruta mordida


mal faz dois dias que não te vejo
e o vazio já se instaurou dentro de casa

como disse cazuza,
aquele amor com gosto de fruta mordida

a cama tá fria, a despeito de todos os edredons que eu coloque em cima dela

o problema é dentro

é que o seu olhar afável e os seus pés entrelaçados mantêm meu coração quente

l'amour est ridicule, je sais
mais c'est aussi la meilleure chose du monde

sábado, 6 de dezembro de 2014

À bientôt, Lyon



E tudo terminou comigo nesse avião me dando conta que essa experiência me transformou para sempre. A princípio, hoje foi um dia comum, comigo jogando o jogo da vida no modo “hard”. Ontem eu havia me despedido de Lyon e de alguns bons amigos; passeei pela cidade à noite voltando pra casa pela última vez. Passei pelos pontos principais, os quais eu tantas vezes freqüentei. E as lembranças me trouxeram paz. E saudades, essa palavrinha que não pode ser exatamente traduzida pro francês. Só a gente que entende. As saudades futuras já estavam desenfreadamente se instalando no meu peito. Resolvi respirar fundo, dar a mão para o João, um dos queridos amigos que eu tive o prazer de fazer pelo caminho, e continuar adiante. Chegando em casa, o Theo, um francês que surgiu como meu aluno de português, mas logo virou um parceiro, foi me visitar para se despedir. Conversamos um pouco sobre o que eu estava sentindo; ou melhor, sobre o que eu não estava nem conseguindo sentir, eu mal acreditava que ia voltar. Ele me contou um pouco da volta dele do Togo, onde ele morou por um ano. Falou sobre como a readaptação foi difícil. Olhou nos meus olhos. Riu. O rosto dele estava cansado, pois ele não dormia há dias por causa do trabalho. Eu também não dormia há dias, mas porque não podia acreditar que estava realmente acabando... Meu ano na França acabou.

Ele acabou dormindo lá em casa: apagou rapidinho. Eu, nem tanto. Devo ter dormido 2 ou 3h. Acordei com o despertador dele e impaciente para acabar de arrumar as coisas e me ver livre disso. Mas antes uma coisa: Desci e fui pegar uma encomenda que eu tinha feito pela internet com alguns presentes (pro meu irmão, pra minha tia e pra uma grande amiga). Eram uns quadrinhos de uma pintora. Eu havia pedido na segunda-feira passada, dia 16, e antes de pagar eu liguei pro site pra perguntar em quantos dias encomenda ia chegar, pois sei que Murphy tem uma atração inegável por mim e quis evitar problemas. Me disseram 2 ou 3 dias, o que significa que chegaria 4ª ou 5ª feira. Mas hoje é segunda-feira de novo e a encomenda ainda não tinha chegado. Não pude acreditar. Eu iria voltar pro Brasil sem presentes pro Natal e ainda teria que arrumar alguém pra ir pegar a encomenda e levar pro Brasil em seguida.

Resolvi respirar, eu não podia me estressar. Fui no mercado e comprei um espumante pra abrir amanhã com a família. Depois passei no “Paul”, a boulangerie que fica perto lá de casa, e comprei meus últimos croissant e pain au chocolat desse meu ano à la française. Levei um pain au chocolat pro meu coloc, Aymeric, porque sei que ele gosta muito. Ele sempre tentava – e conseguia, já que eu não sei dizer não – roubar uns de mim.

Então, continuei a arrumar o meu quarto. Consegui me livrar das tralhas da mesa, tirei as fotos da parede e a poeira do chão. Joguei fora também aquele espelho que eu e alguns amigos achamos na rua uns meses antes e resolvemos levar pra casa, mas que quebrou no caminho porque 2 desses amigos tiveram a brilhante idéia de deixar o espelho na cesta da velov enquanto os 2 dividiam a bike. Lembrei desse grupo querido, que está no Rio e que devo encontrar em breve. Que coisa doida.

Depois disso, o Aymeric me disse que achava que não poderia me acompanhar à Gare Part-Dieu, a estação de trem onde eu pegaria o TGV pro Charles de Gaulle, já que o meu avião sairia de Paris. O motivo é que ele estava esperando uma ligação da ex-namorada que foi morar na Austrália. Nem acreditei. Eu ia embora depois de morar 6 meses com ele e tinha 2 malas de mais de 30kg cada e uma mochila com mais uns 10. Respirei mais uma vez e disse que não tinha problema.
Voltei pro quarto e escrevi uma carta pra ele. Nesse momento, relevei todos os aspectos negativos da coloc e fui muito carinhosa, como me é de costume. Escrevi também pro meu outro coloc, Guillaume, dessa vez um pouco menos intensa.

Arrumei as minhas coisas e fui me despedir. Deixei com ele ainda um resto de haxixe que eu encontrei no meu quarto e uma lixeira do Che Guevara, que eu havia herdado de outra amiga uns meses antes. Ele olhou a quantidade de malas e perguntou se eu tinha certeza que não precisava de ajuda. Eu disse que não. Meu orgulho, maldito, não me deixou aceitar. Já estava magoada por ele ter deixado de me acompanhar por causa de uma ligação que poderia muito bem ter sido feita depois. O problema da mala era o de menos.

Ele me ajudou a colocar as malas no elevador, eu entreguei a carta e dei um abraço apertado. Chorei um bocado, mas achei que seria pior. Entreguei a chave do nosso apt e a porta do elevador se fechou escondendo aquele sorriso simpático e acolhedor desse francês tão querido com quem eu pude dividir alguns muitos bons momentos.

Em seguida, o drama começou. Tirar as malas do elevador já foi bem difícil, mas chegar até o ponto do bonde (tram) me parecia impossível. Num momento que eu já estava sem forças, escutei aquela pergunta mágica tão difícil de se escutar em terras francesas: “Est-ce que je peux vous aider?”. Agradeci muito e o cara e o seu pai se ocuparam das minhas malas até o ponto do tram, me deixando só com a mochila. Pegamos o tram juntos. Eles iriam até a Guillotière e eu continuaria até a Part-Dieu torcendo pra ter sorte por lá também. Nesse meio tempo, me falaram que eram da Colômbia e eu disse que estava voltando hoje para o Brasil. Eles já moram em Lyon há 3 anos. Eu disse que tive um ano incrível por ali e mencionei também que a minha avó não sabe que eu to voltando pro natal. Eles se animaram com a minha animação. Sorriram. Me desejaram uma boa viagem e saíram pela porta do tram. Eu fiquei olhando para as minhas malas, pensativa, pensando na influência das pessoas sobre a cidade e vice-e-versa.

Logo, cheguei à estação. Estava bem cheia e eu mal conseguia passar com as malas, tinha que parar o tempo todo e já estava um pouco estressada. Conferi a plataforma do trem e já fui me dirigindo pra ela. Subi as escadas rolantes segurando as malas e olhando a part-dieu, por onde eu passei por incontáveis vezes. Me veio à lembrança quando eu me despedi do Tomás por essas plataformas, um dos grandes personagens desse ano pra mim, um dentre os tantos amigos brasileiros que descobri por essas terras. Foi no início de agosto. Percebo como a minha noção de tempo está cada vez se afastando mais do tempo cronológico. Eu não só escrevo em tempo psicológico, como sinto e vivo nesse tempo. E, ao mesmo tempo que parece que agosto voou e que na verdade isso tudo aconteceu há um mês atrás, consigo ver tudo que eu construí de agosto até agora, superando as minhas próprias expectativas, uma vez que, acompanhando a partida de vários amigos meus, acreditei também que eu já não construiria mais muita coisa.

O trem chegou e com muita dificuldade eu consegui subir as 4 escadinhas com as 2 malas, mas eu não achava espaço pra elas. Acabei enfiando a mochila num cantinho e deixando as malas no meio das passagens, uma na passagem à direita de onde eu tava sentada e a outra, à esquerda. Sentei com calma, finalmente. Na minha frente, estava um jovem da île de la réunion que mora no Canadá. Aproveitei pra gastar mais um pouquinho do meu francês antes de partir. Ele falou que adorava música brasileira e ele realmente conhecia bastante coisa. Recomendei outros cantores que ele não conhecia e escutamos algumas do meu ipod. Conversamos e rimos um pouco. Ele também estava indo para o Charles de Gaulle. Pedi ajuda na saída, pois eu não tinha muito tempo pra tirar as malas e cada uma tava num canto. Ele se prontificou em me ajudar, mas eu não conseguia passar para o lado oposto que ele foi porque o corredor tava lotado. Saí então pelo mesmo lado, tiramos uma das malas e entrei no trem novamente pela outra porta para recuperar a mochila e a outra mala imensa. O trem tava quase saindo, já que continuaria até Lille, e as pessoas que estavam entrando estavam super impacientes comigo, mas falando alto e os empurrando um bocado eu consegui sair do trem milisegundos antes das portas se fecharem e o meu recém-amigo estava me esperando com a minha outra mala do lado de fora. Achamos um carrinho pras malas, subimos o elevador, trocamos emails e nos separamos porque eu precisava ir pra outro terminal. Mas, antes disso, tiramos uma foto juntos para ficar na memória.

Eu que achava que com o carrinho já tinham acabado os meus problemas percebi que ele não poderia passar para o outro terminal, então foi mais um perrenguezinho chegar até ele. Chegando lá, quis pegar o tax free, mas a fila tava enorme e eu ia ter que esperar no mínimo uma hora. Coloquei na balança e o dinheiro que eu receberia não pesou tanto. Então, fui pesar minhas malas. 1ª: 40,5 kg. 2ª: 35 kg. Mala de mão: 10 kg. Putain.

Eu tinha direito a 2 bagagens de 32 kg, mas como me livrar de mais de 10 kg? Abri as malas e comecei a jogar fora tudo que eu não fazia questão. Tênis e bota que já estavam em estado de petição de miséria e, pela peneira da minha mãe, já era pra eu ter jogado fora há muito tempo. Papéis, papéis, papéis.

Tirei uns 4 casacos pra vestir, enxutei uns 16 livros na minha bolsa (não na bagagem de mão, na bolsa mesmo) e todo o resto na minha bagagem de mão, a qual eu esperava que não me pesassem. Resultado: primeira mala com 31,8, segunda mala com 31,7 e eu com 5 casacos e cachecol num calor da porra – apesar do inverno de fora, no aeroporto tava bem quente. Minhas costas começaram a doer, mas tomei coragem e fui despachar as minhas malas. De cara, pediram pra pesar a bagagem de mão. Descobri que, a princípio, eu tinha direito a 5 kg e que eu tava com 15. A moça me pediu pra me livrar de algumas coisas pra alcançarmos 10, que aí ela deixaria passar. Eu tirei o computador e a câmera e deixei num saco separado. Vesti mais um casaco e pesei de novo. Ainda 12kg. Eu disse que ia vestir tudo e ela teve pena. Eu disse que depois de um ano é bem difícil respeitar esses limites de peso. Ela foi gente boa e deixou passar, mas quand même tava super difícil andar com aquele peso todo. Depois ela ainda quis me dizer que eu tinha direito a 23kg, mas isso só se você compra a passagem da Europa. Se você compra ida e volta do Brasil, também tem direito a 2 de 32 na volta. Ela ligou para alguém para confirmar que era realmente a minha volta porque a minha reserva estava zuada desde o meu vôo de ida por culpa da incompetência da empresa onde ela trabalha, mas isso é uma história pra depois – embora tenha acontecido no começo (eu já disse que o meu tempo é psicológico). Consegui me livrar das bagagens grandes e fiquei sofrendo com a menor, a bolsa com uns 5kg ou mais, lotada de livros, e o saco com o computador e a câmera. Foi uma pena eu não ter despachado mais uns quilinhos. Embarquei, passei pela polícia, tive que tirar tudo da mala e recolocar de novo e cheguei, enfim, ao portão de embarque número 16. Faltava 1h. Sentei com as minhas companheiras malas e fiquei falando com alguns amigos e com a minha mãe pelo whatsapp. É amanhã que vou vê-los. Amanhã. Depois de um ano.

Entrei no avião, achei um lugar lá na frente pra minha mochila e deixei todo o resto aqui no chão comigo, do lado dos meus pés. O sono do dia inteiro foi embora. Dei à bientôt aos meus amigos quando eu ia decolar e desliguei o celular. Comecei a ver uns filmes. Primeiro comecei a ver um do Woddy Allen, mas depois percebi que eu queria uma comédia bem bobinha, era o momento. Achei uma comédia romântica idiota e assisti. Depois vi um filme (Stuck in Love) sobre uma família em um ano complicado pra cada um dos personagens. Terminei o filme chorando horrores, já nem sabia porque. Não foi pelo filme. Foi porque acabou. Não tinha nada a ver com o filme.

Fui ao banheiro e tentei secar minhas lágrimas, mas elas insistiram em continuar caindo. Voltei pro meu assento e o cara a 2 poltronas de mim perguntou se eu tava bem. Eu respondi que sim, mesmo ele tendo percebido que not at all. Lyon me manque déjà.

Peguei o computador e comecei a escrever tudo que me viesse à cabeça. E agora eu to pensando: como explicar o que foi esse ano pra mim? Como passar pro papel tudo isso?

Tudo começou quando eu peguei o vôo de ida. Não, começou muito antes. Começou quando o meu primo me convenceu a fazer intercâmbio. Ou ainda quando eu comecei a estudar francês. Ou ainda quando eu, desde pequena, dizia o quanto eu queria aprender francês e ir pra Paris. Ou ainda quando meus pais escolheram o meu nome, o único nome feminino com o qual acordaram: Gabrielle. Avec 2 L.

Não importa o que exatamente determinou que eu viesse pra França. Tudo determinou, as coisas não são assim divisíveis como parecem, é tudo influência e o passado ainda ta na gente, latente, assumindo outra forma a cada dia, se adaptando às nossas mudanças conforme elas apareçam.

O que importa é que eu não estava feliz, muito pelo contrário. E encontrei nessa cidade, nessa experiência muito mais do que eu jamais pensei que poderia.

Pude escutar o meu coração, sentir meu sangue circular pelo meu corpo, sentir cada pedacinho latejar. Permaneci imóvel. E, diante de todas essas sensações que eu me permiti sentir, pude perceber que, por vezes, as palavras não são suficientes. Respirei, me acalmei e decidi deixar o texto interminado. Não toquei mais nele e aqui ele está, como registro oficial de tudo o que eu pude colocar em palavras durante o vôo.

Je pense que c'est ça. Donc, à bientôt, Lyon.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Une lettre

À Aymeric et Guillaume



"Salut, des colocs!

Je pense que j'ai déjà essayé de vous expliquer ce que "saudade" veut dire, mais c'est vraiment un mot intraduisible. Quand même, c'est ce que je sens après 4 mois au Brésil. Saudade, beaucoup.
Donc, je pense que ça vaut la peine d'essayer une deuxième fois.
Le mot "saudade" exprime une mélancolie empreinte de nostalgie, sans l'aspect maladif.
Dans la nostalgie, il y a un sentiment mêlé de joie et de tristesse, un souvenir du bonheur, mais aussi la mélancolie d'une existence unique dans le passé et d'un retour en arrière impossible.
Autrement, la saudade exprime un désir intense, pour quelque chose que l'on aime et que l'on a perdu, mais qui pourrait revenir dans un avenir incertain.

Donc... Ce que je voulais vous dire est que j'ai saudades de notre coloc, de chaque moment qu'on a vécu ensembre. J'espère que tout va bien pour vous, du fond de mon coeur.

Je vous embrasse fort.

Des bisous brésiliens,
Gabi"

Un cri d'amour





Ainda sem entender, peguei o tram pela última vez em direção à Part Dieu. Com as malas de 1 ano inteiro, entrei no T1 com muita dificuldade. Apesar dos 80 quilos que eu estava carregando nas 2 malas e de mais uns 10 na mochila que estava nas minhas costas, o mais difícil mesmo era digerir que eu estava me despedindo de você, Lyon. Quem me conhece sabe que o taxi nem era uma opção, nananinanão. Cheguei no perrengue e vou embora nele. 70 euros de taxi? Preferi suar um pouquinho pra esquentar um pouco o meu coração que gelava tanto nesse momento. Já no tram, eu evitava até mesmo piscar pra guardar tudo de você que eu pudesse, por uma última vez, olhando através das janelas. E passamos por Perrache e eu me lembrei da primeira vez que eu pisei por aqui. Não sabia nem a direção da tal da residência onde eu fui morar. Insegura com a língua, desacostumada com o frio, me sentindo pequenininha. Muita coisa mudou, né Lyon? Agora eu conheço os nomes das suas ruas como a palma da minha mão. Tenho uma história pra contar em cada cantinho seu. Que saudades eu vou sentir... Foi bom. Bom demais.

Avisto a Place Carnot já com os olhos cheios d'água e a gente atravessa o Rhône. Vejo ao longe a Avenue Berthelot, que abriga a SciencesPo e o Comoedia, meu cinema preferido da cidade. Seguro as malas bem forte e o choro, mais ainda. Aí entramos na Rua de l'Université e me lembro das vezes que eu cheguei correndo pra aula de dança de manhã cedinho. No calor, era fácil, mas, conforme foi esfriando, ficava cada vez mais difícil me levantar da cama. Logo, a Rue de Marseille me derruba. Uns grandes amigos moravam por lá e perdi a conta de quantos bons momentos tive por ali. "Calma", eu digo pra mim mesma me policiando. "Também vai ser bom voltar", repito ininterruptamente enquanto respiro fundo e com vagar. Rue Montesquieu, casa da Mari, uma das minhas melhores amigas dessa experiência. Guillotière, quantas histórias. João, Patrick, Levy, Magno. Nessa altura do campeonato, já desisti de segurar as lágrimas. Mas não soluço, choro aquele choro emocionado no qual elas caem silenciosamente, choro de saudades antecipadas. Logo, logo, a Part Dieu vai chegar. Me concentro nas minhas coisas, vejo se está tudo em seu devido lugar. Enxugo os olhos. Uma senhora esbarra em mim sem querer e diz:

- Escussez-moi, Mademoiselle.
- C'est pas grave, Madame.

Meus olhos enchem d'água novamente. Eu sorrio pra ela e ela me sorri de volta.

Chegou. Salto com muita dificuldade com as minhas 2 malas e com a mochila nas costas, uns 100 quilos ao todo. Corro pra chegar com tranquilidade na plataforma. Quantos rostos, quantas malas, nunca vi a Part Dieu tão lotada. Isso que dá voltar pra casa pro Natal, pelo visto todo mundo está fazendo o mesmo por aqui. Só que eu, ao contrário desses nacionais, vou pra Paris pra pegar um vôo pro Brasil. Sim, pro Brasil, hoje mesmo. Amanhã piso em terras verdes e amarelas novamente. 

A muito custo, entrei no trem. Lotado, tive que deixar uma mala em cada vão que fica entre os vagões. A mochila e a sacola extra levei comigo e coloquei acima do assento. Deixei à mão vários cadernos pra escrever tudo que estava se passando pela minha cabeça confusa naquele instante. Lyon, ma belle Lyon, c'est pas possible que nous soyons finies. 

O trem começa a andar e eu respiro bem fundo. Aí o meu vizinho de assento começa a puxar assunto. Perguntou o que me aflingia. Eu tentei resumir todas as emoções que tomavam conta de mim enquanto eu as narrava. Ele sentiu tudo junto.


Com um sorriso simples e atencioso, dividiu um pouco da sua história comigo também. Vivia no Canadá, longe da família. Sentia muita falta deles. Estava na França para visitar a irmã e acabou aproveitando para conhecer Lyon. Adorou a cidade, não poderia ser diferente. Estava no trem indo para Paris para, afinal, encontrar a irmã, depois de muitos anos sem vê-la. Ela já estava casada e ele tinha 2 sobrinhos que só conhecia por skype. Dava pra ver o quanto ele estava ansioso pelo reencontro.

Ele tinha um francês engraçado. Não entendo muito de sotaques, talvez fosse um sotaque do Canadá, je sais pas. 

Ele disse adorar samba e até arriscou uns nomes: Gilberto Gil, Chico Buarque, Martinho da Vila. Achei curiosa a sensação. Engraçada. Esquentou o meu coração lembrar desses cantores, lembrar do samba, lembrar de todas as vezes que saí para dançar e voltei às 5h da manhã acabada. Foi bom, pensei que no Rio a vida poderia me sorrir também. Bastava que eu me esforçasse para olhá-la com ternura e sorrisse à ela primeiro.


Depois de muito papo e recomendações musicais, chegamos em Paris. Eu estava nervosa, pois tinha 3 malas super pesadas e sacolas espalhadas para tudo que é braço. Precisava tirar tudo do trem muito rapidamente, a despeito da fila e da antipatia de certos franceses, uma vez que este iria continuar a sua rota para outras cidades. Acho que o ponto final era em Lille, se eu não estou enganada.

O meu amigo recém-conhecido me ajudou no sufoco: sem ele, talvez eu tivesse perdido alguma das malas, afinal o povo francês, regra geral, não facilita na empatia e paciência.

Em seguida, nós nos despedimos e fui para o terminal 2 despachar as malas de uma vez. Quase não tive tempo para digerir o au revoir, pois pesei as malas e vi que uma estava com 40 kg e a outra, com 36. Precisava deixar as duas com 32 cada, então tratei de selecionar o que dali eu iria vestir, jogar fora ou entulhar na mala de mão. Em meio à missão, arrumei uns espectadores para me assistir, não sei se torcendo por mim ou apenas se divertindo com a minha angústia. Não muito tempo depois, enfim, bati os 32 kg nas duas malas e me dirigi para o check-in.

Após conversar com a atendente e convencê-la a me deixar embarcar com uma mala de mão com 11 kg, uma bolsa atarracada de coisas e um saco extra com computador, câmera e mais alguns muitos livros pra contar história, agora eu só tinha que esperar o vôo.

Anestesiada, vaguei pelo Charles de Gaulle como quem não toca os pés no chão. Eu nem estava ali naquele momento, não entendia bem o que se passava. Sobre essa parte, mal posso relatar lembranças, pois me falta consciência do que senti. 

Algumas horas depois, entrei no vôo toda carregada e, felizmente, encontrei alguns brasileiros simpáticos que me ajudaram a guardar parte das minhas tralhas no bagageiro. Sentei no assento com o resto delas, tratei de tomar o meu segundo rivotril para conter a ansiedade que se lançava e se espalhava pelo meu corpo e fiquei olhando pela janela esperando o avião decolar. Do meu lado, a mulher e o homem que dividiam comigo a fileira da direita não paravam de falar um segundo. A minha dor de cabeça, já latente há uma semana, ganhava força a cada risada histérica da minha colega de vôo. Para piorar, o meu medo de avião começou a se instalar, de peu en peu

E, então, decolamos. Apesar do medo, fiz questão de olhar pela janela para registrar em imagens o fim do meu ano na França, dans ce beau pays.

No entanto, as lágrimas me invadiram de forma descontrolada. Soluçando, abri o computador e comecei a esccrever: páginas e páginas, sem ordem, aparentemente sem nexo, embora todas absolutamente necessárias. Era isso ou um grito interminável: optei por digitá-lo.

Me parece que, quase um ano depois desse dia marcante, o grito ainda não se acabou por completo. A cada vez que eu toco nesses fragmentos palavreados de você, ma belle Lyon, alguma coisa dói muito lá no fundo e, por vezes, ainda me sobram lágrimas para permitir que você entre um pouco mais em mim, poro por poro, agora por meio das lembranças que eu carrego comigo de cada uma de suas estações.

Acontece, ma chérie, que as palavras, embora quase sempre me sejam libertadoras, nunca me soam suficientes para você. Elles sont pas sufies.

Ainda assim, hoje eu precisei gritar por meio delas: era isso ou multa condominial e polícia na porta. Danos contidos, meus vizinhos agradecem. 






sábado, 27 de setembro de 2014

Rotina


Ela sempre dorme na mesma posição: de bruços, quase sempre só de calcinha. Quase todas as noites ela tenta dormir abraçada a ele, seja com ele por cima, seja com ela por cima, seja com um dos dois por trás fazendo conchinha. No entanto, as tentativas são em vão, simplesmente inúteis. Quando percebe que ele já está caindo no sono, prefere desatar os braços e pernas logo para evitar ter que acordá-lo em pleno sono profundo. Quanto antes, melhor. Então, deita de bruços, se ajeita o mais confortavelmente possível no travesseiro e fecha os olhos, esperando o sono chegar. Por vezes, atrelaça os pés nos dele para lembrar que ele está ali ao lado e que, na manhã seguinte, não terá ido a lugar nenhum.

De manhã, a despeito de todo o esforço que ele faz para não acordá-la, ela acorda. Além de ter o sono leve, percebe a sua movimentação e não quer deixar de dar um beijo de bom dia antes dele ir pro trabalho. De vez em quando, aproveita para tentar seduzí-lo a ficar alguns minutinhos a mais na cama com o carinho nas costas e o cafuné que ele tanto gosta. Na maioria dos dias, consegue se levantar e vai até o quintal, abre a geladeira, pega o leite e vai até a cozinha, religiosamente, para preparar o toddy dele e garantir que ele não vá trabalhar de jejum. Algumas vezes, prepara até um sanduichinho. Já em outras, se dá ao luxo de escutar o conselho carinhoso dele, ao pé do ouvido, de continuar dormindo com tranquilidade. Nessas, ela sorri quase sem conseguir abrir os olhos, e solta o "bundinha", já habitual dos dois, um bom dia matinal leve e divertido.

Como que numa rotina maçante e deliciosa, ele se veste, se despede da mulher e companheira com quem divide a cama, a casa e a vida inteira e vai trabalhar, mais um dia.

Deixa a casa sem vida para ela por algumas horas. Quando ela desperta de vez, vai até a sala, se deita um pouco com o seu gato felino que divide o teto com o casal e fica alguns bons minutos assim. Em seguida, se arruma, faz os seus afazeres matinais do dia e vai para o trabalho.

Chegada a noite, ele a busca também religiosamente no trabalho que fica a poucas quadras de casa, os dois voltam de mãos dadas contando um ao outro dos grandes pequenos acontecimentos do dia, ele abre o portão do prédio, ela entra, ele abre a porta do meio, ela entra e vai caminhando pelo corredor, ás vezes animada, ás vezes nem tanto e, então, ele abre a portinha da casa dos dois, os dois entram e o apê volta a ter vida. Cada vez mais.

terça-feira, 3 de junho de 2014

Pro amor não solar



Quem me conhece sabe que eu adoro fazer doces: biscoitos amanteigados, bolos, brownie, petit gateau, torta de limão, brigadeiro e tudo mais que temos direito. Hoje, eu tava fazendo um brownie de tarde e me distraindo com isso para deixar o estudo pra prova de lado, pros 47 do segundo tempo, comme toujours. Pra quem gosta, não tem tanto mistério, mas é claro que é preciso tomar algumas precauções pro seu doce sair como o desejado. Com paciência e afeto - e, de quebra, uma receita legal - sai sempre uma delícia. Dá errado quando a gente tá com pressa, tá impaciente ou sem vontade, negligente... Prestando atenção nas medidas, mexendo bem e, se possível, peneirando tudo que está em pó (farinha, açucar, chocolate, etc) e separando a gema da clara pra clara em neve coroar a fofura da massa, o brownie fica uma delícia, pode acreditar. Ah! Mais uma coisa importante! Claro que não pode esquecer de não abrir o forno nos primeiros 20 minutos, né? Senão o brownie ou bolo podem solar e ir pro beleléu. 

A tempo, para tranquilizá-los, já vou dizendo que não virei blogueira de receitas de cozinha, não teria paciência nem talento pra tal. Mas é que hoje, enquanto eu preparava o tal do brownie, me ocorreu que com os relacionamentos funciona mais ou menos do mesmo jeito. Vou explicar o meu ponto.

Bom, não sei bem se acontece por obra do acaso ou do destino. De que lado você está? Em qual deles você acredita? Vou te dizer que, nesse caso, pouco importa. O que eu sei é que um deles - eleja o seu preferido - cisma em juntar pessoas umas com as outras num emaranhado de risos, corpos, conversas, olhares, cheiros e aí acontece que vez ou outra essa junção simplesmente funciona. Parece até mágica. Desse encontro, um infinito de possibilidades se anuncia. É que o amor é assim, alguma coisa entre a realidade e a magia. C'est pas rationnel, mais ça marche.

E da junção dessas duas pessoas que nunca haviam sido juntadas antes nasce alguma coisa nova, e o mundo muda de cor e de forma e as pessoas envolvidas, idém, mudam junto. E a gente descobre um novo jeito de encaixar a cabeça no peito dele, de abraçar na ponta dos pés, de fechar os olhos enquanto ele beija o nosso pescoço. Um novo jeito de fazer cafuné, de enroscar os pés nos dele, de aranhar as costas, de escolher o restaurante pra ir jantar, de olhar e escutar enquanto o outro desabafa, de calar e de falar pelos cotovelos conforme a situação pedir e de tudo o mais. Uma nova forma de deixar bilhetes surpresas, de dividir a cozinha juntos, se revezando entre o preparo do almoço e os beijos de cumplicidade. Um jeito completamente novo de fazer sexo. E outro de fazer amor. Uma maneira diferente de iniciar conversas seríssimas - ou super banais. É você e um outro, e de vocês somados surge uma terceira coisa nova e mutável, conforme o movimento de um e do outro. 

É leve. E gostoso. E não é muito diferente de preparar um bolo. Pra ficar no ponto e derreter na boca, tem que caprichar no preparo, c'est ça

Pois que a gente esteja sempre dosando paciência e afeto, companheirismo e tesão, nós dois e cada um e, claro, realidade e magia, ingredientes estes tão fundamentais pro amor não solar.

quarta-feira, 21 de maio de 2014

Fragmentos de Lyon

Honestamente, eu não sei mesmo porque eu vim. A mim, parece que eu entrei numa máquina que foi me jogando de um lado pro outro e me fazendo fazer tudo o que eu fiz até chegar aqui. E, quando eu saí, já era Lyon, já era eu, já era esse status. Parece que antes foi só um sonho ruim. E eu sei, dentro de mim, que depois isso tudo aqui vai me parecer nada além de um sonho muito bom. E a realidade, onde ela está? Pode mesmo ela ser boa? Talvez só dependa da gente. Volto com essa certeza, sem caminhos certos do que fazer, mas em paz, comigo mesma no controle da minha vida.