terça-feira, 11 de fevereiro de 2014
Chissà
Olhei fundo nos seus olhos durante o nosso último sexo molhado e... alcancei você. Tão frágil, tão bonito, puro carinho. Não queria me deixar ir. E eu não queria que você me deixasse também. Mas... c'est la vie, cheia de encontros e desencontros. Eu fui, deixando um pequeno bilhetinho pra você antes de entrar no ônibus. Você me olhou surpreso e nem tentou esconder que os seus olhos estavam ficando molhados. Me puxou de volta pra um último abraço bem forte com gosto entalado de saudade. Espero que você tenha entendido que, na verdade, eu queria ter dito muito mais do que eu de fato disse. Eu sei que você sabe. Uma boa vida pra você e quem sabe a gente ainda se esbarra por aí, mundo afora... Chissà.
sábado, 8 de fevereiro de 2014
Magno
Início de outono europeu, começando a esfriar de leve, amigos em casa, horas e horas pra fazer o jantar, afinal o mais gostoso de tudo aquilo era justamente a união, a falta de pressa, os risos calmos, soltos, livres e serelepes. A trilha sonora mista ao fundo, democrática, com músicas em várias línguas. Foi assim que você apareceu na minha vida. Você chegou pra mim nesse cenário mágico. Sua mancha na cara, seus óculos grandes e o seu riso mais sincero do mundo. Suas cantorias, suas coreografias e seus abraços repentinos. A brasilidade em forma de amigo. E põe amigo nisso.
Foram noites em claro falando o que dava na telha, abrindo baús pesadíssimos repletos de loucuras, traumas, amores, family issues e tudo e qualquer coisa que a gente sentia que deveria falar. E, passado um tempo, nem precisava mais falar. Era só olhar e, ás vezes, nem olhar. Nos entendíamos pela falta dele, assim como pela falta do riso e pela falta do encontro. Era tudo muito fácil, muito lógico, quase como se nós mesmos sentíssemos a dor e a alegria do outro.
Meu amigo, meu grande amigo de toda essa experiência maravilhosa que Lyon me deu, eu só tenho a te agradecer. Obrigada por tudo que eu nunca vou conseguir colocar em palavras. Eu me apaixonei e me reapaixonei por você mil vezes nesse intensivo de nós dois que fizemos desde que você pisou lá no meu apartamento para um jantar descompromissado. As viagens, as tardes, as festas, enfim, tudo o que vivemos juntos foi muito especial pra mim, mas principal e simplesmente porque você que estava comigo nesses momentos. Merci, mon chéri, te espero por aqui.
As faixas amarelas
Passei por cima de mim mesma várias vezes por você. É que você chegou num momento que eu já estava cansada, muito cansada. Cansada de perder pessoas importantes para mim por orgulho. Mas, ironias da vida, depois de ter feito tanta gente sofrer com isso, não é que eu fui me envolver com uma pessoa exatamente assim, extremamente desconfiada e orgulhosa? Eu achei que eu ia ceder um pouquinho e que você, vencido, viria com o resto. Eu andaria metade da estrada e a gente estacionaria os carros, um de cada lado dela, atravessaria e se encontraria exatamente no meio, em cima daquelas duas faixas amarelas. Elas alertariam para a contra-mão e diriam que não era permitido ultrapassar. E eu imaginava que você não ia dar a mínima para elas, exatamente como eu queria. Nos beijaríamos ali mesmo, em cima das malditas. Pra ontem, pra anteontem, para antes de anteontem. Com pressa. Coisas da esfomeada, a tal da urgência de amar.
Mas, ás vezes, acontece dessa urgência ser unilateral. O outro até tem algum sentimento por nós, mas não podemos esquecer que a gente toca o outro cada um à sua maneira; e, da mesma forma, a gente sente o outro cada um à sua maneira. Ás vezes, a química é evidente, mas pode ser que ela não baste pra você ou pra mim. Pode ser que eu queira receber uma ligação sua no meio da semana com você perguntando como foi o meu dia, deitado na cama, só com os pés para fora, ainda calçados, olhando pro teto, sorrindo e tirando o sapato esquerdo com o pé direito e vice-e-versa. Pode ser também que eu queira escutar exatamente o que você fez no trabalho hoje e saber de todas as picuinhas que te estressam - e, quem sabe, até te fazer uma massagem depois disso pra você relaxar? Pode ser ainda que eu queira cuidar de você quando você tiver febre, fazer uma comidinha caseira ou pedir alguma coisa pelo telefone; fazer cafuné no seu cabelo ou te distrair te contando uma história engraçada; pegar um filme na locadora (sim, ainda adoro pegar filmes em locadoras) ou me render ao seu apreço pela tecnologia e baixar algum que acabou de entrar em cartaz e você tava louco pra ver - prometo que eu faço pipoca e tudo! Numa terça-feira que a gente não trabalhasse - afinal, somos os dois freelancers -, a gente iria passar a tarde inteira na praia ou então só tomaríamos um sorvete na esquina. Num sábado, você sairia com os seus amigos e ficaria de ressaca o domingo inteiro, mas, de repente, no fim do dia poderíamos pegar um cinema, o que você acha? Você me contaria o que a bebedeira rendeu pra cada um de vocês na noite anterior. A gente riria das histórias se repetindo. Na quinta-feira, eu iria com alguns amigos pro Baixo Gávea, pra Lapa ou pra São Salvador e você chegaria lá, me daria um beijo molhado e passaria a noite sentado em algum pé sujo (ou até mesmo no meio-fio) conversando com a gente sobre tudo e qualquer coisa. Ou não, ou ficaríamos 1, 2 semanas sem nos ver e depois mataríamos a saudade com uma noite daquelas. Ou com Mc Donald's às 3h da manhã. Ou melhor, com Fornalha. Tanto faz, o que importa mesmo é a companhia. Você poderia tocar violão pra mim qualquer dia desses e eu poderia cantar com a minha voz desafinada e com meus cabelos despenteados. A gente poderia também enrolar 4h pra sair da cama, fazer planos de viagens e de fugas por aí, colocar a pizza congelada no forno ou ir prum bar ver a luta que você tanto queria ver - apesar de eu não dar a mínima pra lutas. Ou, ou, ou.... são tantas as possibilidades. É, pode ser que eu queira. Pode ser que.
A gente tem a mania de achar que a vida vai acontecendo, como se fôssemos exclusivamente sujeitos passivos das nossas próprias, quando na verdade podemos ser protagonistas e até roteiristas delas. Esquecemos de como as relações são frágeis e de como podemos deixar alguém passar por orgulho, desatenção, etc e tal e, com essa pessoa, um leque enorme de potenciais momentos bons e ruins que poderiam fazer toda a diferença pra gente. E, numa dessas, encontrar um, dois, três, vários companheiros para a vida; não só amores românticos, mas também amigos, colegas e familiares há muito afastados - pessoas essas que nos mostram várias facetas delas e de nós mesmos; que estão lá para nos irritarem vez ou outra, mas para aquele ombro e palavra amiga quando precisarmos também, que nos amam por tudo que a gente deixou elas verem da gente. Parceiros. E, a partir de então, a gente vai, no nosso tempo, jogando a desconfiança prum lado, o orgulho pro outro e vamos até o meio da estrada, em cima das faixas que nos advertem para a contra-mão e nos condenam dizendo que não podemos ultrapassar de forma alguma. Decidimos não dar a mínima para elas. Quando tomamos essa decisão, pode ser que o outro já esteja ali na faixa nos esperando. Ou pode ser que ele não tenha chegado ainda, tenha pego um trânsito filho da puta pelo caminho. Ou ainda, pode ser que ele tenha chegado do outro lado da estrada, tenha estacionado o carro, mas não tenha tido vontade ou coragem de sair dele até então. Ou, pior, pode ser que o outro já tenha feito todo esse trajeto, já tenha deixado o carro, abandonado a desconfiança e o orgulho, atravessado metade da estrada e ficado nos esperando em cima da faixa. E pode ser que ele tenha se cansado de passar tanto tempo ali, nu, sozinho. Pode ser que tenha voltado para o carro, soltado o freio de mão, acelerado e retornado para o seu ponto de partida ou prosseguido para o destino seguinte. Tantos "pode ser que", tantas variáveis... nunca se sabe, on ne sait rien. Por via das dúvidas, tentemos não perdê-lo. Quando se tratar de alguém especial pra chamar de parceiro, que a gente não dê ouvidos às faixas amarelas. Elas já estão ali, juntas, em dupla, análogas e proporcionais em meio à toda aquela contra-mão em volta delas e à impossibilidade de ultrapassagem, assim é fácil mandar e desmandar, não é mesmo? Então, que essas ordens se restrinjam ao trânsito e nada mais, pois em matéria de amor elas não estão com nada.
terça-feira, 28 de janeiro de 2014
O último cigarro
Ela estava num bar papeando com alguns amigos. Palhaça, contava uma história atrás da outra - e uma mais absurda que a outra. Era o seu jogo, adorava ficar na dúvida sem saber se os outros riam dela ou com ela. E se fazia de sonsa, em tudo. Sabia como manipular cada um à sua maneira. Pesava cada detalhe, cada pinta, cada toque. E a fórmula sempre dava certo. Resultado? Uma legião de apaixonados e doidinhos da cabeça. Ela gostava.
De repente, ele chega. Conhecia um dos amigos dela e acaba sentando na mesa. Ela e ele já se conheciam já anos, amigos de amigos, mas nunca haviam ficado. Não que não tivessem tido vontade, a tensão sexual entre eles era evidente, mas ele sempre tava namorando. Ele, sério quando namora. Ela, séria com os que namoram, não acha legal ficar com cara comprometido, então nem provocava. Mas dessa vez não, ele estava solteiro.
Ela logo percebeu porque ele estava se comportando diferente, mais solto. Ela continuou com as suas histórias e ia chegando cada vez mais gente para escutá-las e rir (seja da garota ou com a garota). Ele ficou falando dos planos para o futuro, perguntando dos dela e dos amigos em comum dos dois. Se ela tinha notícias deles. Ela foi respondendo e entrando no jogo. Começou a olhá-lo muito fixamente nos olhos. Passava a mão esquerda suavemente pelo próprio pescoço enquanto isso. Pegou um cigarro, acendeu, puxou e tragou. Lentamente. Sem pressa. Mordia os lábios de temps en temps. Levantou-se tomando cuidado com os movimentos e se aproximou por trás, apoiando as mãos sob o peitoral dele. Isso tudo para dizer que ia ao banheiro. Ele já estava excitado e não conseguia disfarçar muito bem o transtorno que a menina estava causando em sua cabeça. Se adiantou e foi pegar uma cerveja enquanto ela estava no banheiro. Ela saiu, ainda mais bonita. Ele a esperava na porta com a cerveja gelada e com o copo extra. Ela riu, aceitou o copo e disse que pagava a próxima então. Ela disse para voltarem para a mesa e o pegou pela mão, carinhosa. Ele largou a mão e apertou a cintura dela, enquanto passavam pelo corredor que dava acesso à área com as mesas. Ela ia na frente. Fechou os olhos e suspirou. Chegando na mesa, sentou-se prestando atenção nas pernas, na postura, no sorriso, nos cabelos... em tudo. Queria estar irresistível para ele. E, de fato, estava.
Passados uns 10 minutos de conversa fora com o resto do pessoal, ela disse que iria lá fora no posto atrás de um cigarro. Ele disse que a acompanharia. E foram. Já sabiam que não voltariam para o bar naquela noite.
Pela rua, andavam lado a lado com o assunto afiadíssimo, numa intimidade súbita que surpreendia ambos. E, então, ele lembrou que ainda tinha um cigarro. Pegou no bolso e entregou pra ela. Ela aceitou, sorriu e apoiou-se num murinho de uma casa antiga que ficava nessa mesma rua. Ele, na sua frente. Ela apoia um dos pés no murinho, deixa a alça direita do vestido cair pelo seu ombro e acende o cigarro com calma, ora o encarando, ora olhando para o céu, para baixo, para frente. Sempre confiante.
Ele pára de falar. Apoia-se no poste que ficava logo à frente e curte esse momento, observando cada trago da menina. Os dois sorriem quando os seus olhares se encontram, mas respeitam o tempo do cigarro.
Primeiro ele, depois o beijo.
De repente, ele chega. Conhecia um dos amigos dela e acaba sentando na mesa. Ela e ele já se conheciam já anos, amigos de amigos, mas nunca haviam ficado. Não que não tivessem tido vontade, a tensão sexual entre eles era evidente, mas ele sempre tava namorando. Ele, sério quando namora. Ela, séria com os que namoram, não acha legal ficar com cara comprometido, então nem provocava. Mas dessa vez não, ele estava solteiro.
Ela logo percebeu porque ele estava se comportando diferente, mais solto. Ela continuou com as suas histórias e ia chegando cada vez mais gente para escutá-las e rir (seja da garota ou com a garota). Ele ficou falando dos planos para o futuro, perguntando dos dela e dos amigos em comum dos dois. Se ela tinha notícias deles. Ela foi respondendo e entrando no jogo. Começou a olhá-lo muito fixamente nos olhos. Passava a mão esquerda suavemente pelo próprio pescoço enquanto isso. Pegou um cigarro, acendeu, puxou e tragou. Lentamente. Sem pressa. Mordia os lábios de temps en temps. Levantou-se tomando cuidado com os movimentos e se aproximou por trás, apoiando as mãos sob o peitoral dele. Isso tudo para dizer que ia ao banheiro. Ele já estava excitado e não conseguia disfarçar muito bem o transtorno que a menina estava causando em sua cabeça. Se adiantou e foi pegar uma cerveja enquanto ela estava no banheiro. Ela saiu, ainda mais bonita. Ele a esperava na porta com a cerveja gelada e com o copo extra. Ela riu, aceitou o copo e disse que pagava a próxima então. Ela disse para voltarem para a mesa e o pegou pela mão, carinhosa. Ele largou a mão e apertou a cintura dela, enquanto passavam pelo corredor que dava acesso à área com as mesas. Ela ia na frente. Fechou os olhos e suspirou. Chegando na mesa, sentou-se prestando atenção nas pernas, na postura, no sorriso, nos cabelos... em tudo. Queria estar irresistível para ele. E, de fato, estava.
Passados uns 10 minutos de conversa fora com o resto do pessoal, ela disse que iria lá fora no posto atrás de um cigarro. Ele disse que a acompanharia. E foram. Já sabiam que não voltariam para o bar naquela noite.
Pela rua, andavam lado a lado com o assunto afiadíssimo, numa intimidade súbita que surpreendia ambos. E, então, ele lembrou que ainda tinha um cigarro. Pegou no bolso e entregou pra ela. Ela aceitou, sorriu e apoiou-se num murinho de uma casa antiga que ficava nessa mesma rua. Ele, na sua frente. Ela apoia um dos pés no murinho, deixa a alça direita do vestido cair pelo seu ombro e acende o cigarro com calma, ora o encarando, ora olhando para o céu, para baixo, para frente. Sempre confiante.
Ele pára de falar. Apoia-se no poste que ficava logo à frente e curte esse momento, observando cada trago da menina. Os dois sorriem quando os seus olhares se encontram, mas respeitam o tempo do cigarro.
Primeiro ele, depois o beijo.
sexta-feira, 17 de janeiro de 2014
quarta-feira, 8 de janeiro de 2014
fluido
vem, se achegue, meu bem
e me conta um detalhe qualquer
que eu ainda não saiba sobre ti
quero alimentar esse nosso amor
e beber mais e mais de ti
serve um retalho qualquer
uma partícula que seja
é que faz muito calor aqui, agora
esse verão tá de doer, tá de lascar
então vem você aqui me regar
e me deixa te regar de volta
não me deixe evaporar de ti, meu bem
que eu não te deixo evaporar aqui também
sejamos líquido um no outro
balançando e dançando
nos misturando e nos tornando
um só
e me conta um detalhe qualquer
que eu ainda não saiba sobre ti
quero alimentar esse nosso amor
e beber mais e mais de ti
serve um retalho qualquer
uma partícula que seja
é que faz muito calor aqui, agora
esse verão tá de doer, tá de lascar
então vem você aqui me regar
e me deixa te regar de volta
não me deixe evaporar de ti, meu bem
que eu não te deixo evaporar aqui também
sejamos líquido um no outro
balançando e dançando
nos misturando e nos tornando
um só
Já era, era amor
Ele sabia como fazer o negócio. Sabia muito bem. Desde o começo, a envolveu com o seu sorriso de boca fechada e com os olhos que a comiam ardentemente, desde a primeira vez que a viu. De início, ela se sentiu invadida e não gostou, quis que ele se afastasse, que a deixasse ir. Não quis dar intimidade. Apesar disso, ele persistiu e, aos poucos, embora continuasse se sentindo invadida, começou a gostar disso; foi desarmada, se rendeu.
Ele a fez implorar, pedir por favor. O rapaz queria conversar por horas e horas, mas ela já estava ficando louca com aquela espera; com aquela delonga; com aquela demora. Estava virando um suplício para ela. A menina já havia imaginado todo o filme dos seus corpos entrelaçados. Queria que ele a consumisse, a penetrasse, a desvendasse e a mostrasse tudo o que ela poderia ser e ainda não sabia.
Ela não era virgem, mas ainda assim perdeu muitas virgindades com aquele homem. Ele a mostrou seu próprio corpo, seus próprios gostos, os seus detalhes e retalhos. Ela sentiu, através dele, o seu próprio sabor. E gostou. Muito. Via a cena como se fosse uma mera observadora no recinto. Via o seu sorriso estampado, entre gemidos, de olhos fechados. Mãos para o alto, dedos entrelaçados à cabeceira da cama, segurando a madeira firmemente.
Ele foi suave, gentil. E completamente diferente de todos os outros. Ele a olhava nos olhos durante toda aquela luxúria. As suas mãos eram fortes, seguras, sabiam exatamente onde ir e como agir. Ele a disse que sabia que ela não estava acostumada a sentir tanto prazer, e que aquilo era só o começo. Disse também que ela levava jeito pra coisa e que ainda ia fazer muito marmanjo sofrer nas suas mãos. Ele quis dizer entre as suas pernas, mas não quis ser deselegante.
Deselegante, afinal, era tudo o que ele não era nenhum pouco. Era elegante em tudo: na fala, na linguagem corporal, no sorriso, nas piadas, no toque e até mesmo nas inseguranças. A princípio, ele as escondia muito bem. Mas, de pouquinho a pouquinho, ela sacou que a segurança dele era aquela segurança tipicamente adolescente, que funciona como uma máscara para esconder todos medos e a imensa dificuldade de entregar-se. Ela sacou, mas achava graça, achava bonitinho. Estava tão envolvida que não conseguia ver nenhum defeito naquele homem. Tudo, sob seu olhar, virava peculiaridade, aptidão, capacidade e, portanto, qualidade.
Ele é um cara que tem uma linha de funcionamento na cama. Tem ordem, tem planejamento. Sabe o que vai provocar, o que vai fazer sentirem com cada gesto, com cada toque. Com certeza, ele deve fazer muito sexo. Todas as meninas devem querer. Todas devem ficar assim, que nem ela ficou. É um homem que, por detrás dessa máscara, tem medo. Provavelmente, arruma muitas conquistas para lutar contra esse medo. É isso que ele faz da vida, faz amor; faz com que todas fiquem caidinhas por ele e, assim, ele alimenta o seu ego e joga os seus medos pra debaixo da cama. Parece funcionar, mas nem tudo que parece é.
Ela deixou o seu corpo ser o que ele queria ser. Permitiu que ele buscasse, que ele encontrasse, que ele fosse exatamente o que ele era e nem sabia, e nem podia. O quadril, liberto. As unhas cravadas nas costas dele. Os cabelos descabelados, e belos. O corpo arrepiado, molhado. A boca seca. Puxava os seus cabelos, beijava o seu pescoço. Como se fosse morrer logo em seguida. Como se fosse a primeira e, ao mesmo tempo, a última vez. Aquele momento lhe pareceu o ápice de toda a sua vida. Mal sabia ela que depois dele ainda viriam muitos outros. Pensava que não, que se tratava de uma química linda demais para que se repetisse. Nunca mais aconteceria, julgava a mulher. Mulher que ela estava se tornando justamente naquele momento.
Quando os dois acabaram, ela se entregou ao colchão deitada, rendida, embeiçada, enamorada. Ao lado dele. Ficou olhando para o teto por alguns segundos sem entender bem o que tinha acabado de acontecer. Ele, carinhosamente, virou o seu rosto para ele e mergulhou os seus olhos nos olhos dela por minutos e minutos, sem pressa. Ela ficou surpresa que ainda estava viva, que aquilo era real. O frio alcançou o seu ventre mais uma vez e a sensação era de que várias borboletas estavam voando de um lado para o outro, fazendo altas acrobacias áreas, tudo dentro dele. Ela sentiu medo de que aquilo acabasse, e se não fosse recíproco?
Decidiu abandonar aquele pensamento, sabia que não era hora disso. Fechou os olhos e o beijou, tirando todo o seu fôlego. Ele tremia, também estava no mesmo transe que ela. Ela pediu mais. Agora que havia experimentado, não queria mais largar o osso. Ele ficou feliz de realizar o desejo dela. Esse e tantos outros. Todas as vezes, ela achava que ia morrer. O coração fazia que ia sair pela boca. Mas não saía, tudo se mantinha sob controle. Bem, pelo menos todos os seus orgãos e suas funções vitais. O mesmo não podia ser dito sobre as suas fantasias e os seus sentimentos.
Seguidamente, conversaram por horas. Falaram sobre o sentido da vida, sobre mortes difíceis que enfrentaram, sobre alguns bons amigos que cada um carregava na memória, sobre realização profissional e tudo o mais. Já eram íntimos um do outro, num instante. Em meio a uma pausa, os dois dormiram. Abraçados, enlaçados, entrelaçados. Ela sonhou muito naquela noite, mas mal se lembrou quando acordou.
E os dois acordaram juntos, lado a lado. Fizeram cafuné um no outro e se amaram mais algumas vezes antes de tomarem coragem para se levantarem. Nem escovado os dentes eles tinham, mas isso não prejudicou nenhum pouco os beijos. Muito pelo contrário. Ela disse que precisava ir. Ele discordou. Ela sorriu, com os olhos e com a boca. Ele sorriu de volta e a envolveu em seus braços por trás, enchendo o seu pescoço de beijos, repetidamente. Ela arrepiou e os dois se amaram mais uma vez antes dela sair pela porta da sala.
E ele, esperto que é, estava completamente certo desde o princípio: aquilo tudo era só o começo. Ela ainda entraria e sairia muitas vezes por aquela mesma porta. Os sorrisos se tornariam familiar e cada pedacinho dos seus corpos também. Já era, pois era amor.
Ele a fez implorar, pedir por favor. O rapaz queria conversar por horas e horas, mas ela já estava ficando louca com aquela espera; com aquela delonga; com aquela demora. Estava virando um suplício para ela. A menina já havia imaginado todo o filme dos seus corpos entrelaçados. Queria que ele a consumisse, a penetrasse, a desvendasse e a mostrasse tudo o que ela poderia ser e ainda não sabia.
Ela não era virgem, mas ainda assim perdeu muitas virgindades com aquele homem. Ele a mostrou seu próprio corpo, seus próprios gostos, os seus detalhes e retalhos. Ela sentiu, através dele, o seu próprio sabor. E gostou. Muito. Via a cena como se fosse uma mera observadora no recinto. Via o seu sorriso estampado, entre gemidos, de olhos fechados. Mãos para o alto, dedos entrelaçados à cabeceira da cama, segurando a madeira firmemente.
Ele foi suave, gentil. E completamente diferente de todos os outros. Ele a olhava nos olhos durante toda aquela luxúria. As suas mãos eram fortes, seguras, sabiam exatamente onde ir e como agir. Ele a disse que sabia que ela não estava acostumada a sentir tanto prazer, e que aquilo era só o começo. Disse também que ela levava jeito pra coisa e que ainda ia fazer muito marmanjo sofrer nas suas mãos. Ele quis dizer entre as suas pernas, mas não quis ser deselegante.
Deselegante, afinal, era tudo o que ele não era nenhum pouco. Era elegante em tudo: na fala, na linguagem corporal, no sorriso, nas piadas, no toque e até mesmo nas inseguranças. A princípio, ele as escondia muito bem. Mas, de pouquinho a pouquinho, ela sacou que a segurança dele era aquela segurança tipicamente adolescente, que funciona como uma máscara para esconder todos medos e a imensa dificuldade de entregar-se. Ela sacou, mas achava graça, achava bonitinho. Estava tão envolvida que não conseguia ver nenhum defeito naquele homem. Tudo, sob seu olhar, virava peculiaridade, aptidão, capacidade e, portanto, qualidade.
Ele é um cara que tem uma linha de funcionamento na cama. Tem ordem, tem planejamento. Sabe o que vai provocar, o que vai fazer sentirem com cada gesto, com cada toque. Com certeza, ele deve fazer muito sexo. Todas as meninas devem querer. Todas devem ficar assim, que nem ela ficou. É um homem que, por detrás dessa máscara, tem medo. Provavelmente, arruma muitas conquistas para lutar contra esse medo. É isso que ele faz da vida, faz amor; faz com que todas fiquem caidinhas por ele e, assim, ele alimenta o seu ego e joga os seus medos pra debaixo da cama. Parece funcionar, mas nem tudo que parece é.
Ela deixou o seu corpo ser o que ele queria ser. Permitiu que ele buscasse, que ele encontrasse, que ele fosse exatamente o que ele era e nem sabia, e nem podia. O quadril, liberto. As unhas cravadas nas costas dele. Os cabelos descabelados, e belos. O corpo arrepiado, molhado. A boca seca. Puxava os seus cabelos, beijava o seu pescoço. Como se fosse morrer logo em seguida. Como se fosse a primeira e, ao mesmo tempo, a última vez. Aquele momento lhe pareceu o ápice de toda a sua vida. Mal sabia ela que depois dele ainda viriam muitos outros. Pensava que não, que se tratava de uma química linda demais para que se repetisse. Nunca mais aconteceria, julgava a mulher. Mulher que ela estava se tornando justamente naquele momento.
Quando os dois acabaram, ela se entregou ao colchão deitada, rendida, embeiçada, enamorada. Ao lado dele. Ficou olhando para o teto por alguns segundos sem entender bem o que tinha acabado de acontecer. Ele, carinhosamente, virou o seu rosto para ele e mergulhou os seus olhos nos olhos dela por minutos e minutos, sem pressa. Ela ficou surpresa que ainda estava viva, que aquilo era real. O frio alcançou o seu ventre mais uma vez e a sensação era de que várias borboletas estavam voando de um lado para o outro, fazendo altas acrobacias áreas, tudo dentro dele. Ela sentiu medo de que aquilo acabasse, e se não fosse recíproco?
Decidiu abandonar aquele pensamento, sabia que não era hora disso. Fechou os olhos e o beijou, tirando todo o seu fôlego. Ele tremia, também estava no mesmo transe que ela. Ela pediu mais. Agora que havia experimentado, não queria mais largar o osso. Ele ficou feliz de realizar o desejo dela. Esse e tantos outros. Todas as vezes, ela achava que ia morrer. O coração fazia que ia sair pela boca. Mas não saía, tudo se mantinha sob controle. Bem, pelo menos todos os seus orgãos e suas funções vitais. O mesmo não podia ser dito sobre as suas fantasias e os seus sentimentos.
Seguidamente, conversaram por horas. Falaram sobre o sentido da vida, sobre mortes difíceis que enfrentaram, sobre alguns bons amigos que cada um carregava na memória, sobre realização profissional e tudo o mais. Já eram íntimos um do outro, num instante. Em meio a uma pausa, os dois dormiram. Abraçados, enlaçados, entrelaçados. Ela sonhou muito naquela noite, mas mal se lembrou quando acordou.
E os dois acordaram juntos, lado a lado. Fizeram cafuné um no outro e se amaram mais algumas vezes antes de tomarem coragem para se levantarem. Nem escovado os dentes eles tinham, mas isso não prejudicou nenhum pouco os beijos. Muito pelo contrário. Ela disse que precisava ir. Ele discordou. Ela sorriu, com os olhos e com a boca. Ele sorriu de volta e a envolveu em seus braços por trás, enchendo o seu pescoço de beijos, repetidamente. Ela arrepiou e os dois se amaram mais uma vez antes dela sair pela porta da sala.
E ele, esperto que é, estava completamente certo desde o princípio: aquilo tudo era só o começo. Ela ainda entraria e sairia muitas vezes por aquela mesma porta. Os sorrisos se tornariam familiar e cada pedacinho dos seus corpos também. Já era, pois era amor.
quarta-feira, 20 de novembro de 2013
No ar
Vejo rastros de luz. Linhas, sinais, raios no céu. Eles vem
através de nós, se entranhando na gente, passando eu pra você e você pra mim;
fincando os frutos dessa conexão inegável e, simultaneamente, fazendo-os dançar. E os nossos pedaços vão caindo pelo
chão, voando pelo ar. Gotas de mim e de você, partículas, matéria. Elas vem se
misturando e transformando-se pela influência do externo; do outro; de nós,
juntos. As gotas, os pelos, os suspiros. Eles vem caindo, dançando, bem
suavemente. E tudo acaba numa eterna troca, que na verdade não acaba nunca.
meia dúzia
Sonhei contigo ontem, ché-
ri.
Eu juro.
Depois de tantos meses sem bei-
jos
sem to-
que
sem chei-
ro
sem nós naquele emaranhado de cor-
pos
onde não se divide nós do-
is
não se vê onde eu aca-
bo e onde come-
ça vo-
cê.
Mas achei melhor nem te falar.
Vivemos nesse pacto
de calar verda-
des.
Nao sei se,
assim,
achamos que a fazemos maiores
ou se é fraqueza mesmo
pu-
ra
e simples-
mente.
Quem sa-
be?
Pena.
Íamos bem.
Te dei o meu telefone e to-
do,
simplesmente to-
do,
o meu corpo,
entregue
como se tivesse sido sem-
pre
teu.
Como se cê fosse nada menos qu'a
chave
para abrí-
lo
por com-
ple-to,
a chave que por tanto tempo
procu-
rei.
Senti saudades.
Ás vezes parecia até
qu'eu ia morrer de-
las.
Mas não, fui sobre-
vivendo
sem ti
me re-
fazendo
entre um passo e
outro
entre uma dan-
ça
e outra mais.
E fiquei bem.
Parei de te re-
moer,
até que chegou essa noi-
te
em que eu sonhei
com
vo-
cê.
Engulo a saliva,
respiro fun-
do,
busco afastar os pensamen-
tos,
mas eles insis-
tem em
vir
e me confun-
dir.
Pensei que cê iria me visitar, afinal
te passei meu endere-
ço
e até disse que era bem-
vindo
e que esse tam-
bém
é um bom país
pra se passar aniversá-
rios.
Mas cê não entendeu.
Ou não escu-
tou.
Ou,
pior,
escutou,
entendeu
e não quis.
Mas prefiro acreditar nas primeiras hipó-
teses.
Eu teria te esperado.
Pelada,
em roupa e pêlo
mas com pele de so-
bra
e cheia de
a-
pelo.
Mas acontece que
cê nunca apare-
ceu.
No meu sonho,
po-
rém,
cê vinha
bonito e pronta-
mente.
Lutávamos contra o outro
e contra nós
mes-
mos,
em forma de sexo.
Disputa justa,
mas sem re-
gras.
Vale tu-
do.
E, então, calamos mais uma
vez.
E eu perdi o resto da sanidade qu'eu
inda ti-
nha
olhando direta-
mente
pros seus olhos
infini-
tos.
Parece que cê fez de propó-
sito,
quem mandou olhar
de vol-
ta?
E, depois de to-
da
a entrega,
cê partiu.
Mas me deixou,
antes,
uma carta na me-
sa
da sala.
Me tremi to-
da
pra lê-
la,
mas li.
Nela, meia dú-
zia
de pala-
vras.
Mais do que suficien-
tes.
Expressando tudo que tam-
bém trans-
borda
do meu pei-
to
já há tan-
to.
Me aceita, meu
bem.
Se ache-
ga,
me bei-
ja
e me diz pra
ficar.
What's the point,
ché-
ri,
de se se-
pa-
rar
sí-
la-
bas
assim sem nem
pre-
ci-
sar.
Me deixa te mostrar que a gente cabe sim numa mesma frase,
e inda pode ser coeso.
ri.
Eu juro.
Depois de tantos meses sem bei-
jos
sem to-
que
sem chei-
ro
sem nós naquele emaranhado de cor-
pos
onde não se divide nós do-
is
não se vê onde eu aca-
bo e onde come-
ça vo-
cê.
Mas achei melhor nem te falar.
Vivemos nesse pacto
de calar verda-
des.
Nao sei se,
assim,
achamos que a fazemos maiores
ou se é fraqueza mesmo
pu-
ra
e simples-
mente.
Quem sa-
be?
Pena.
Íamos bem.
Te dei o meu telefone e to-
do,
simplesmente to-
do,
o meu corpo,
entregue
como se tivesse sido sem-
pre
teu.
Como se cê fosse nada menos qu'a
chave
para abrí-
lo
por com-
ple-to,
a chave que por tanto tempo
procu-
rei.
Senti saudades.
Ás vezes parecia até
qu'eu ia morrer de-
las.
Mas não, fui sobre-
vivendo
sem ti
me re-
fazendo
entre um passo e
outro
entre uma dan-
ça
e outra mais.
E fiquei bem.
Parei de te re-
moer,
até que chegou essa noi-
te
em que eu sonhei
com
vo-
cê.
Engulo a saliva,
respiro fun-
do,
busco afastar os pensamen-
tos,
mas eles insis-
tem em
vir
e me confun-
dir.
Pensei que cê iria me visitar, afinal
te passei meu endere-
ço
e até disse que era bem-
vindo
e que esse tam-
bém
é um bom país
pra se passar aniversá-
rios.
Mas cê não entendeu.
Ou não escu-
tou.
Ou,
pior,
escutou,
entendeu
e não quis.
Mas prefiro acreditar nas primeiras hipó-
teses.
Eu teria te esperado.
Pelada,
em roupa e pêlo
mas com pele de so-
bra
e cheia de
a-
pelo.
Mas acontece que
cê nunca apare-
ceu.
No meu sonho,
po-
rém,
cê vinha
bonito e pronta-
mente.
Lutávamos contra o outro
e contra nós
mes-
mos,
em forma de sexo.
Disputa justa,
mas sem re-
gras.
Vale tu-
do.
E, então, calamos mais uma
vez.
E eu perdi o resto da sanidade qu'eu
inda ti-
nha
olhando direta-
mente
pros seus olhos
infini-
tos.
Parece que cê fez de propó-
sito,
quem mandou olhar
de vol-
ta?
E, depois de to-
da
a entrega,
cê partiu.
Mas me deixou,
antes,
uma carta na me-
sa
da sala.
Me tremi to-
da
pra lê-
la,
mas li.
Nela, meia dú-
zia
de pala-
vras.
Mais do que suficien-
tes.
Expressando tudo que tam-
bém trans-
borda
do meu pei-
to
já há tan-
to.
Me aceita, meu
bem.
Se ache-
ga,
me bei-
ja
e me diz pra
ficar.
What's the point,
ché-
ri,
de se se-
pa-
rar
sí-
la-
bas
assim sem nem
pre-
ci-
sar.
Me deixa te mostrar que a gente cabe sim numa mesma frase,
e inda pode ser coeso.
terça-feira, 19 de novembro de 2013
caidinhos
cê me disse que vê muita vida
nestes meus olhos amarelos
e disse assim mesmo
"amarelos"
e,
em seguida,
discutimos por longos minutos
sobre o tom da cor dos tais
cê disse que relutou muito
em se perder neles
mas que desistiu, já fraco
- era inútil, concluiu
por último, ainda disse
que a forma deles, caidinhos
só dá a eles mais humanidade,
mais subjetividade,
mais força,
uma vez que cê vê a força como
coragem de mostrar as fraquezas
já que essas,
por
sua
vez,
habitam todos nós,
por mais que mintamos
escondamos
e disfarcemos
- é humano, bonita,
ser sensível e passível de ser
mudada, tocada e d'amar
é preciso ser muito macho pra tal,
masculinamente feminina
nestes meus olhos amarelos
e disse assim mesmo
"amarelos"
e,
em seguida,
discutimos por longos minutos
sobre o tom da cor dos tais
cê disse que relutou muito
em se perder neles
mas que desistiu, já fraco
- era inútil, concluiu
por último, ainda disse
que a forma deles, caidinhos
só dá a eles mais humanidade,
mais subjetividade,
mais força,
uma vez que cê vê a força como
coragem de mostrar as fraquezas
já que essas,
por
sua
vez,
habitam todos nós,
por mais que mintamos
escondamos
e disfarcemos
- é humano, bonita,
ser sensível e passível de ser
mudada, tocada e d'amar
é preciso ser muito macho pra tal,
masculinamente feminina
Assinar:
Postagens (Atom)