Vejo rastros de luz. Linhas, sinais, raios no céu. Eles vem
através de nós, se entranhando na gente, passando eu pra você e você pra mim;
fincando os frutos dessa conexão inegável e, simultaneamente, fazendo-os dançar. E os nossos pedaços vão caindo pelo
chão, voando pelo ar. Gotas de mim e de você, partículas, matéria. Elas vem se
misturando e transformando-se pela influência do externo; do outro; de nós,
juntos. As gotas, os pelos, os suspiros. Eles vem caindo, dançando, bem
suavemente. E tudo acaba numa eterna troca, que na verdade não acaba nunca.
quarta-feira, 20 de novembro de 2013
meia dúzia
Sonhei contigo ontem, ché-
ri.
Eu juro.
Depois de tantos meses sem bei-
jos
sem to-
que
sem chei-
ro
sem nós naquele emaranhado de cor-
pos
onde não se divide nós do-
is
não se vê onde eu aca-
bo e onde come-
ça vo-
cê.
Mas achei melhor nem te falar.
Vivemos nesse pacto
de calar verda-
des.
Nao sei se,
assim,
achamos que a fazemos maiores
ou se é fraqueza mesmo
pu-
ra
e simples-
mente.
Quem sa-
be?
Pena.
Íamos bem.
Te dei o meu telefone e to-
do,
simplesmente to-
do,
o meu corpo,
entregue
como se tivesse sido sem-
pre
teu.
Como se cê fosse nada menos qu'a
chave
para abrí-
lo
por com-
ple-to,
a chave que por tanto tempo
procu-
rei.
Senti saudades.
Ás vezes parecia até
qu'eu ia morrer de-
las.
Mas não, fui sobre-
vivendo
sem ti
me re-
fazendo
entre um passo e
outro
entre uma dan-
ça
e outra mais.
E fiquei bem.
Parei de te re-
moer,
até que chegou essa noi-
te
em que eu sonhei
com
vo-
cê.
Engulo a saliva,
respiro fun-
do,
busco afastar os pensamen-
tos,
mas eles insis-
tem em
vir
e me confun-
dir.
Pensei que cê iria me visitar, afinal
te passei meu endere-
ço
e até disse que era bem-
vindo
e que esse tam-
bém
é um bom país
pra se passar aniversá-
rios.
Mas cê não entendeu.
Ou não escu-
tou.
Ou,
pior,
escutou,
entendeu
e não quis.
Mas prefiro acreditar nas primeiras hipó-
teses.
Eu teria te esperado.
Pelada,
em roupa e pêlo
mas com pele de so-
bra
e cheia de
a-
pelo.
Mas acontece que
cê nunca apare-
ceu.
No meu sonho,
po-
rém,
cê vinha
bonito e pronta-
mente.
Lutávamos contra o outro
e contra nós
mes-
mos,
em forma de sexo.
Disputa justa,
mas sem re-
gras.
Vale tu-
do.
E, então, calamos mais uma
vez.
E eu perdi o resto da sanidade qu'eu
inda ti-
nha
olhando direta-
mente
pros seus olhos
infini-
tos.
Parece que cê fez de propó-
sito,
quem mandou olhar
de vol-
ta?
E, depois de to-
da
a entrega,
cê partiu.
Mas me deixou,
antes,
uma carta na me-
sa
da sala.
Me tremi to-
da
pra lê-
la,
mas li.
Nela, meia dú-
zia
de pala-
vras.
Mais do que suficien-
tes.
Expressando tudo que tam-
bém trans-
borda
do meu pei-
to
já há tan-
to.
Me aceita, meu
bem.
Se ache-
ga,
me bei-
ja
e me diz pra
ficar.
What's the point,
ché-
ri,
de se se-
pa-
rar
sí-
la-
bas
assim sem nem
pre-
ci-
sar.
Me deixa te mostrar que a gente cabe sim numa mesma frase,
e inda pode ser coeso.
ri.
Eu juro.
Depois de tantos meses sem bei-
jos
sem to-
que
sem chei-
ro
sem nós naquele emaranhado de cor-
pos
onde não se divide nós do-
is
não se vê onde eu aca-
bo e onde come-
ça vo-
cê.
Mas achei melhor nem te falar.
Vivemos nesse pacto
de calar verda-
des.
Nao sei se,
assim,
achamos que a fazemos maiores
ou se é fraqueza mesmo
pu-
ra
e simples-
mente.
Quem sa-
be?
Pena.
Íamos bem.
Te dei o meu telefone e to-
do,
simplesmente to-
do,
o meu corpo,
entregue
como se tivesse sido sem-
pre
teu.
Como se cê fosse nada menos qu'a
chave
para abrí-
lo
por com-
ple-to,
a chave que por tanto tempo
procu-
rei.
Senti saudades.
Ás vezes parecia até
qu'eu ia morrer de-
las.
Mas não, fui sobre-
vivendo
sem ti
me re-
fazendo
entre um passo e
outro
entre uma dan-
ça
e outra mais.
E fiquei bem.
Parei de te re-
moer,
até que chegou essa noi-
te
em que eu sonhei
com
vo-
cê.
Engulo a saliva,
respiro fun-
do,
busco afastar os pensamen-
tos,
mas eles insis-
tem em
vir
e me confun-
dir.
Pensei que cê iria me visitar, afinal
te passei meu endere-
ço
e até disse que era bem-
vindo
e que esse tam-
bém
é um bom país
pra se passar aniversá-
rios.
Mas cê não entendeu.
Ou não escu-
tou.
Ou,
pior,
escutou,
entendeu
e não quis.
Mas prefiro acreditar nas primeiras hipó-
teses.
Eu teria te esperado.
Pelada,
em roupa e pêlo
mas com pele de so-
bra
e cheia de
a-
pelo.
Mas acontece que
cê nunca apare-
ceu.
No meu sonho,
po-
rém,
cê vinha
bonito e pronta-
mente.
Lutávamos contra o outro
e contra nós
mes-
mos,
em forma de sexo.
Disputa justa,
mas sem re-
gras.
Vale tu-
do.
E, então, calamos mais uma
vez.
E eu perdi o resto da sanidade qu'eu
inda ti-
nha
olhando direta-
mente
pros seus olhos
infini-
tos.
Parece que cê fez de propó-
sito,
quem mandou olhar
de vol-
ta?
E, depois de to-
da
a entrega,
cê partiu.
Mas me deixou,
antes,
uma carta na me-
sa
da sala.
Me tremi to-
da
pra lê-
la,
mas li.
Nela, meia dú-
zia
de pala-
vras.
Mais do que suficien-
tes.
Expressando tudo que tam-
bém trans-
borda
do meu pei-
to
já há tan-
to.
Me aceita, meu
bem.
Se ache-
ga,
me bei-
ja
e me diz pra
ficar.
What's the point,
ché-
ri,
de se se-
pa-
rar
sí-
la-
bas
assim sem nem
pre-
ci-
sar.
Me deixa te mostrar que a gente cabe sim numa mesma frase,
e inda pode ser coeso.
terça-feira, 19 de novembro de 2013
caidinhos
cê me disse que vê muita vida
nestes meus olhos amarelos
e disse assim mesmo
"amarelos"
e,
em seguida,
discutimos por longos minutos
sobre o tom da cor dos tais
cê disse que relutou muito
em se perder neles
mas que desistiu, já fraco
- era inútil, concluiu
por último, ainda disse
que a forma deles, caidinhos
só dá a eles mais humanidade,
mais subjetividade,
mais força,
uma vez que cê vê a força como
coragem de mostrar as fraquezas
já que essas,
por
sua
vez,
habitam todos nós,
por mais que mintamos
escondamos
e disfarcemos
- é humano, bonita,
ser sensível e passível de ser
mudada, tocada e d'amar
é preciso ser muito macho pra tal,
masculinamente feminina
nestes meus olhos amarelos
e disse assim mesmo
"amarelos"
e,
em seguida,
discutimos por longos minutos
sobre o tom da cor dos tais
cê disse que relutou muito
em se perder neles
mas que desistiu, já fraco
- era inútil, concluiu
por último, ainda disse
que a forma deles, caidinhos
só dá a eles mais humanidade,
mais subjetividade,
mais força,
uma vez que cê vê a força como
coragem de mostrar as fraquezas
já que essas,
por
sua
vez,
habitam todos nós,
por mais que mintamos
escondamos
e disfarcemos
- é humano, bonita,
ser sensível e passível de ser
mudada, tocada e d'amar
é preciso ser muito macho pra tal,
masculinamente feminina
segunda-feira, 14 de outubro de 2013
O que seria?
O
seu quarto tem esse mistério engraçado que de mistério nem tem tanta coisa
assim. É que a luz está acesa e, de repente, apaga. Sempre foi assim. Mas não
tenhamos pressa, pois minutos depois, sem regra alguma –pelo menos ao que nos
parece-, ela reacende. O tal do mistério provavelmente se dá por um simples mal
contato. Alguém não deve ter arrochado a lâmpada como ou tanto quanto deveria.
Provavelmente foi isso, mas eu gosto de acreditar que é algo a mais. Como se o
quarto tivesse vida. E eu realmente acho que ele tem um pouco, sabia? Cada
informação se complementa e nos ajuda a completar esse quebra-cabeça que é esse
cômodo onde você habita. As primeiras páginas de jornal pela parede, em linhas
retas. A cama gigante com uma tanga de tartaruga vermelha e amarela acima dela,
presa a outra parede. Os dois sofás, apertados no resto do espaço e
convidativos como só eles, distribuindo aconchego. A mesinha de centro com as
garrafas de dias atrás, os isqueiros e cinzeiros. E, claro, o resto do suco de
laranja natural. A tevê que mal funciona à esquerda da mesa e as duas, juntas,
tampando parcialmente a enorme janela que nos lembra que há um mundo lá fora. A
janela, no momento, disfarça essa sua função, escondida por uma cortina
laranja, bem bonita. E você, sentado no sofá à minha direita, com as pernas de
índio, portando um sorriso amigo, testa os isqueiros que estão a sua frente pra
ver se algum funciona. O primeiro, nada. O segundo arrisca soltar uma faísca,
mas decepciona. O terceiro, idem, mas o quarto funciona. Você então o acende
triunfante. Nessa hora, a lâmpada viva do seu quarto resolve apagar-se. Eu te
olho fixamente. A chama do isqueiro queima o seu cigarro. Você traga com
vontade, uma tragada daquelas há tanto ansiada. Prende, puxa e solta a fumaça
em pequenas bolas. A fumaça sobe e eu observo a sombra dela na cortina laranja.
É que você está brincando com o isqueiro agora e a sua chama, por sua vez, está
iluminando a cortina. Que bonita a fumaça subindo, no seu tempo, anestesiando
os nossos corpos, e todo o entorno. Eu me rendo ainda mais ao sofá, estou
prostrada. Meus dedos estão separados um dos outros, abertos, unidos ao tecido
que forra esse tal de sofá que, originalmente, ficava na sala. Que bom que
decidimos trazer pro seu quarto, fica bem melhor aqui. Você abandona o isqueiro
na mesa e sentimos a escuridão momentânea do ambiente. Eu respiro fundo e te
sinto, apesar de não nos tocarmos. Sorrio de boca e olhos fechados, mas de alma
aberta. Penso que esse deve ser o sorriso mais sincero, justamente esse sorrido
no escuro. Não passa pelas nossas mentes, quando sorrimos esse sorriso, a
intenção de mostrar para o outro que estamos felizes, satisfeitos, bem. Ele
nada vê, não temos luz. Nós nada mostramos, apenas somos. É aquele sorriso de
dentro pra fora, de quem sorri quase que por não resistir. O sorriso começa
pelo coração, passa pelas veias todas e sai pela boca, anônimo, livre. Não está
indo para lugar nenhum, ele simplesmente é, aqui e agora, sem olhares ou
julgamentos. Me sinto feliz. Sinto o imã nesse sofá, nessa casa, nesse bairro e
cidade. Sinto o imã que me puxa bem forte. Não tinha jeito, era pra eu ter
vindo, já nem imagino um outro roteiro. O que seria de mim sem a chegada
acompanhada de frio na barriga (e nas mãos; e nos pés; e no rosto; e na alma?).
Afinal, era inverno quando eu cheguei por essas terras. O que seria de mim sem
a solidão mais solitária de todas? Sem os beijos em mim mesma, debaixo dos
edredons? Sem a dificuldade da língua, da falta de toque e de violão? Sem a
estranheza de corpos, de clima e a ausência de miscigenação? O que seria de mim
sem o primeiro abraço sincero em dias tão frios, sem as primeiras confissões do
amigo, sem a língua materna proferida por ele que veio esquentar o meu coração?
E ainda, o que seria de mim sem elas, tão práticas e simplistas, sempre em busca
de uma festa e de um vinho bom? E, mais, sem aqueles que chegaram e me fizeram
sentir lar, carinho, afago, pele, apego, cabelo, apelo. O que seria de mim sem
eles? E as andadas, caminhadas, sozinha ou acompanhada. Longas, demoradas, de
volta pra casa, principalmente. Aquele momento pra pensar. Primeiro, eu ia agasalhada
e, depois, conforme foram passando os meses, os casacos foram sendo guardados
na mala, substituídos por finos Cardigans até que desaparecessem. E, ainda, o
que seria de mim sem as visitas? Tantas que me trouxeram um pouco de casa, de
lar. O riso do amigo antigo. O reconhecimento do outro e de mim. Tantas
histórias, tanta vida. Seguimos juntos, mais pra lá ou pra cá, mas sempre como
parte um do outro. E o que seria de mim, ainda, sem os cappuccinos nas
madrugadas na companhia do amigo-irmão que eu nem posso dizer que fiz, e sim
que reconheci, por essas terras francesas? Cappuccino esse regado por histórias
mil, sem roteiro, sem ordem, sem vez e, aparentemente, sem porquês. Mas tem
porquê em tudo. Ou
em quase tudo ou, pelo menos, em muita coisa. Será mesmo? E sem as
racionalizações inacabáveis, como eu ficaria? Certamente mais sã, mas também
mais vazia. E sem a ansiedade, sem o coração acelerado, sem o medo? E sem o
primo, seja por skype, por email, por mensagem, ou por telepatia até. E sem
ele, o que eu seria? E sem a dança, sem o corpo, sem o tempo pra puxar o ar e
piruetar? Sem as viagens, sem as voltas pra casa, sem as dores nas costas pela
mala pesada. O que seria? Sem o verão que foi chegando, sem os dias no parque
deitada na grama, sem a camaradagem. Sem o cabelo curtinho, sem o olhar
penetrante, sem o vestido vermelho. Sem as noites embriagadas, sem os livros
engolidos, sem as páginas rabiscadas. Sem os papéis acumulando, sem os números
atormentando, sem a saudade de casa. Sem os sonhos alucinógenos, sem as
interpretações ora tranqüilizantes, ora apavorantes, mas nunca desconsideradas.
Sem as aulas que me inspiraram, sem as madrugadas acordada repassando cada uma
das possibilidades. Sem a imaginação, sem a verdade, sem o sonho, sem tantos
adeus. O que seria de mim? Sem a sua barba embarassada, sem o riso solto do
outro, sem a tatuagem daquela. Sem a bicicleta de dia ou de noite. Sem as
descidas com o vento nos cabelos e no peito, sem a mão no freio. Sem as vistas
da cidade, sem as novidades, sem aqueles cantinhos. Sem o medo, sem os
resultados, sem as soluções. Sem seus envelopes que sempre traziam boas novas.
É que ele disfarça e só me anuncia o que me cura, nunca o que machuca. Sem a
falta do pai, sem a mudança do amigo, sem o tempo que nos separa uns dos
outros. E cava; cava fundo, nos deixando cheio de buracos, cicatrizes,
machucados. Sem a Itália, sem a pizza, sem o chianti. Sem o calor, sem a praia,
sem o bronzeado. Sem os cachos de cabelo dela, sem a risada gostosa, sem as
reflexões, sem o escrito no muro na piazza Santo Spirito. Sem nos perdemos, sem
nos encontramos, sem os anjos pela estrada. Sem as fotos dos pés, sem a calma,
sem as piadas. Sem os amigos preservados pelo tempo e distância. Sem a vista
pro mesmo palácio depois de dois anos. Sem o reencontro e sem o abraço. Sem as
cervejas no metrô, sem as conversas se poucas palavras e muito significado. Sem
as marcas da guerra da Bósnia que também marcaram a mim. Sem o narguilé, os
relatos e as marcas de bala nos prédios da cidade. Sem a mudança de casa, sem
as malas pesadas, sem a ansiedade no peito. Sem a arrumação sofrida, sem a
estranheza do momento. Sem a visita deles, sem os sofás abertos na sala com a
gente prostrado. Sem os engradados de cerveja quente e sem a geladeira para
gelá-los. Sem a fila de velovs, sem as escaladas de prédios e árvores. Sem os
ônibus noturnos, sem o incômodo na lombar, sem as passagens baratas. Sem as
informações na rua, sem os mapas mentais; sem as setas, sem as cabanas, sem o
wi-fi. Sem o cabelo vermelho, sem o abraço da mãe, sem o esforço, sem as
palavras de paz. Sem os mercados, sem os supermercados, sem os cartões-postais.
Sem os olhares, sem os filmes, sem as lembranças, sem os suspiros. Sem as
surpresas, sem os drinks, sem o italiano, sem as mãos atadas. Sem a volta pra
casa, sem o resmungão. Sem o show inesperado, sem correr abraçadas, sem o
prosecco do bom. Sem aniversário, sem a toca de jazz, sem ela feliz. Sem a nota
que toca, sem a vontade de dançar, sem o francês cantado, sem. Sem a despedida,
sem o tramway solitário, sem o soluçar. Sem as brasileiras verde-e-amarelas, sem
o feijão preto, sem plantar bananeira. Sem a simpatia alheia, sem a sorte
grande, sem essa missão. Sem eles, sem a fumaça, sem união. Sem MPB, sem samba,
sem zaz, sem batidão. Sem batucada, sem bagunça, sem bordel, sem alienação. Sem
beber no quai, sem amigos, sem abraço, sem vinho barato. Sem risada, sem coloc,
sem festa, sem baseado. Sem bolo de chocolate, sem maldade, sem saudades nem
novidades. Sem planos. Sem separação, sem divisão, sem “por que nós?”. Sem a
carta da vó, sem choro, sem lembrança. Sem pressão, sem motivação, sem fita
métrica. Sem vontade, sem boca, sem cafuné, sem palavrão. Sem dicionário, sem
armário, sem armadura, sem porão. Sem contagem regressiva, sem frio na barriga,
sem vento na cara. Sem volta do inverno, sem cinema, sem marca na cara. Sem
sinceridade, sem riso engasgado, sem turbante. Sem escada, sem degraus, sem
olhar pra frente, sem um de cada vez. Sem conquista, sem chegada, sem volta,
sem palavra, sem vestígio, sem tatuagem, sem início, sem vadiagem. Sem postura,
sem pintura, sem obra-de-arte. Sem cultura, sem teatro, sem balé, nem pé. Sem
pé nem cabeça, nem sentido. Sem desenho pendurado pela casa, sem mistério, sem
quase nada. Sem porquê, sem limite, sem máscara, sem maquiagem. Sem cara limpa,
sem corpo, sem vontade. Sem perigo, sem sexo, sem coxa, sem apelo. Nem nuca,
sem olhos nos olhos, sem perdão, sem resposta, sem outra vez. Sem mistura, sem
assombro, sem arte, sem ilusão. Sem tempo, sem piada, sem calma, sem
crescimento, sem união nem transformação. Sem Lyon, sem cada um de vocês, sem
nós, sem meu, sem eu.
domingo, 13 de outubro de 2013
psiu
Para Diego Asensi
existe um laço entre nós
ele é inegável, forte e maleável
se mexe, se adapta, se modifica
muda de cor, de material e até de sabor
mas mantém uma espécie de essência
do misturar entre eu e você
essência essa já comum a nós dois,
de casa
e flechas de flashs seus me invadem
nessa noite fria
velozes, como pontadas
me impressionando como é de costume
eu tou drogada ou isso é verdade?
respiro, abençoada pelo pôr-do-sol carioca,
de barriga pra cima, olhos fechados, no deck da lagoa
faz um ventinho bom,
solto o ar com calma
e você vem e tira de mim verdades tão grandes
e há tanto ignoradas, enterradas, refugiadas em mim
mesma
- ei, psiu, você
eu venho aqui pra dizer
um obrigada por me guiar
com um empurrãozinho ali e outro acolá
domingo, 22 de setembro de 2013
Naturellement
E tudo se deu naturalmente. Eu nem ia morar com vocês, a princípio seriam duas francesas. E tudo mudou num segundo e vocês me apareceram. Esses encontros da vida me fazem acreditar quase cegamente em destino. Parece impossível que não exista uma força bem poderosa, capaz de ter trazido vocês dois pra perto de mim e eu pra perto de vocês. Há um ímã inevitável, inegável. Nada mais explica encontros tão mágicos, era pra ser.
Depois de uns dez dias morando juntos, hoje foi o nosso momento. Obrigada pelas risadas e por terem se aberto tanto para mim e para os meus amigos. Obrigada pela atmosfera. Foi demais falar a mesma língua que vocês realmente, acho que eu nunca tinha feito isso tão bem sem ser na minha língua materna.
- C'était un bon début, je pense qu'on aura une bonne coloc
- Bah oui, je suis sûre
sábado, 21 de setembro de 2013
Carta para o meu pai
Na última noite, sonhei com você e acho que não foi à toa. Não que este tenha sido o único sonho que eu tive com você nesses últimos meses (tive alguns com o Bê também), mas dessa vez o meu sonho veio como força de impulso para que eu te escrevesse.
Não sei direito o que tem acontecido ultimamente e, me perdendo pelas minhas análises de tudo, acho que você muito menos. Mas, como tudo na vida, é perigoso a gente deixar coisas que pinicam a gente na nossa vida durarem por tempo demais, pois parece que fica cada vez mais difícil reverter a situação que ás vezes a gente nem sabe como começou. Na dúvida, melhor fazermos aquilo que nos cabe. Na dúvida, melhor dizermos o que sentimos.
Não por acaso, sonhei um sonho muito tranquilizante e perturbador ao mesmo tempo. No meu sonho, eu não tinha escrito esse e-mail e, por motivos que não haviam sido explicados, eu e você havíamos ficado muitos anos distantes. Muita coisa aconteceu, eu havia mudado de profissão, de cidade (pelo que tudo indicava, eu morava em São Paulo) e me casado. Você tinha conseguido abrir o seu negócio, o Bê tava enorme e vocês tinham um cachorro labrador. Parece que por muitos anos nós havíamos nos mantido distantes, sempre sabendo por alto e por terceiros notícias sobre o outro. Até que, lá pelos meus 40 e poucos anos, começamos a nos reaproximar com uns empurrãozinhos do Bê, que já estava com os seus vinte e poucos anos. Decidi, então, organizar e comprar uma viagem pra nós dois. Não foi nada muito sofisticado não, era um lugar tranquilo de praia no Brasil, mas foi a escolha ideal. Não sei exatamente que praia e que cidade, mas possivelmente na Região dos Lagos. Tirei, então, 1 semana do trabalho e do marido e te roubei por essa mesma semana dos seus tantos afazeres. Você tinha ficado surpreso, mas topou.
E, nessa semana, tivemos algumas boas conversas, demos outras boas risadas, comemos bolo de cenoura e ficamos os 2 lendo, um em cada rede diferente entre as tantas que estavam presas nas árvores que ficavam de frente pra praia. Cada um, um livro diferente. Separados, cada um ocupado com a sua própria leitura e mais conectados do que nunca, finalmente.
A questão é que a gente nem lembrava por que motivo não havíamos feito isso mais vezes. Não era por falta de vontade, por nenhuma das partes. Conversamos e fizemos o outro entender os nossos diferentes pontos de vista, que, a esse ponto, já datavam de um par de longuíssimas dezenas de anos.
Fica difícil explicar com palavras tudo que o sonho me disse. As cores dele eram lindas, muito vivas. E muita coisa não tinha mudado nada, apesar dos trajes já tão diferentes com os quais as nossas vidas se vestiam.
O que realmente importa é que ele me fez vir aqui pelo medo de ele se tornar realidade. Ao mesmo tempo que ele foi um sonho bom, agradabilíssimo, e que me deu vontade de fazer uma viagem dessas com você um dia - de preferência, não só uma vez -, ele foi muito perturbador porque me mostrou que por inseguranças, por pensar demais, por mágoas pequenas que vamos transformando em buracos enormes ou simplesmente por simples falta de cuidado, daqui a pouco a gente se afasta muito mais do que planejamos ou queremos de pessoas importantes pra nós.
Pois ele veio em tempo. Amanhã é seu aniversário e eu queria muito estar com você, levando um bolinho, um presente qualquer, indo no posto comprar a coca pro almoço ou apenas ajudando a colocar a mesa. Queria estar com você pra te dar um abraço gostoso, pra ver pela milésima vez os seus olhos enchendo d'água por estar com a família reunida (uma das coisas que não cansa nunca em você) ou pra ouvir as suas piadas bobas, já contadas centenas de vezes também. Queria estar com você pra acompanhar de perto os seus fios de cabelo de menos e sabedoria de mais - sem esquecer de cada marquinha que aparece no seu rosto e nas suas mãos e que só te deixam mais bonito.
Sinto muito pela minha falta. Deve mesmo ser difícil demais ter filhos e deixá-los ir pra longe da gente - quem sabe daqui a 20 anos eu entenderei tudo isso melhor, do outro lado da mesa.
Eu espero que você esteja bem e quero que você saiba que eu não digo isso da boca pra fora ou porque estamos oficialmente no seu mês (dia dos pais e aniversário). Eu espero isso não só porque é agosto, mas porque não há um só dia em que eu não pense em você (aqui ou no Brasil, isso é o de menos).
Obrigada por ter me ajudado a me tornar a pessoa que eu sou.
Sinto saudades demais.
Amo você.
Um beijo grande.
encore une fois
através dos seus olhos,
que me abrem um horizonte novo
a cada encontro,
eu me redescubro
e aí você me traz um espelho
e me mostra mais um pedacinho de mim,
antes desconhecido
e eu transbordo de amor
encore une fois
porque você me percebe
e porque em você eu tenho alguém,
somos juntos
e o nosso entrelaçado é de alma
que me abrem um horizonte novo
a cada encontro,
eu me redescubro
e aí você me traz um espelho
e me mostra mais um pedacinho de mim,
antes desconhecido
e eu transbordo de amor
encore une fois
porque você me percebe
e porque em você eu tenho alguém,
somos juntos
e o nosso entrelaçado é de alma
Manso
Para Rodri, meu querido amigo
Ei, obrigada pela oportunidade de te conhecer tão bem e tão facilmente. Com palavras de menos e sensações de mais. Obrigada pelo conforto em forma de calor humano, sem precisarmos emitir som algum. Obrigada por ser tão prático e apaixonante. Obrigada pelo riso solto, pelas sacadas geniais e pelo amor que transborda sem sufoco. Obrigada também por ter oferecido o sofá tantas vezes e por ter levado pra mim o edredom quentinho em cada uma delas e me coberto. Obrigada pelas piadas e pelas promessas. Obrigada por ter sentido, desde o princípio, reciprocamente, que nós iríamos marcar um a vida do outro. Obrigada por me ter dito isso e por ter sido você desde o primeiro minuto; por favor, nunca deixe de o ser.
Eu estou agora mesmo reparando nos nossos dedos entrelaçados. Eu mexo o polegar, acaricio o seu. Reparo nas cores, na textura, nos singelos movimentos. Olho fixamente. Sua mão abraça os meus dedos com um carinho só seu. E me sobe um impulso de te abraçar, mas eu fico no dedo.
sexta-feira, 20 de setembro de 2013
Tatuagem
Seus olhos evitaram os meus
(já é o nosso habitual),
mas o seu corpo me aceitou bem
e respondeu com amor
Em cada pequeno gesto,
um pouco do que ficou
Seu gosto já não é mais o mesmo,
ficou claro que muita coisa mudou
Mas por baixo do toque,
da barba e cabelos;
por trás desse nosso olhar fugitivo
e de todas aquelas palavras não ditas,
ainda tem você
e ainda tem eu
Não encontramos nenhum nós,
parece que ele se perdeu,
evaporou
Já até duvidamos se um dia ele realmente existiu...
Será mesmo?
Mas eu avisto claramente
com aquela nitidez mil
um pouco do que poderia ter sido
e não foi
Nessa fragilidade da vida
onde tudo se esparrama pelo chão
num piscar
e as possibilidades vão escorrendo pelos dedos
ainda que fechemos as mãos com força
elas vão encontrando as brechas;
os átomos se dividem,
se adaptam,
e passam, viajam, deslizam
e o que era não é mais;
e o que podia ser, idém
já não pode mais
Mas sempre fica no ar,
naquela risada conhecida
com som de lar
Fica na barba embarassada
que arranhou outrora a minha pele
- sensível que só ela, mas que adorava ficar marcada de você
Fica nos gestos confusos por insegurança e desejo
quase encabulados, mas intensos como nunca
Fica nos nossos olhares fugitivos
que só confirmam
que, realmente,
muita coisa ficou
Cravada, tatuada,
entre você e eu
(já é o nosso habitual),
mas o seu corpo me aceitou bem
e respondeu com amor
Em cada pequeno gesto,
um pouco do que ficou
Seu gosto já não é mais o mesmo,
ficou claro que muita coisa mudou
Mas por baixo do toque,
da barba e cabelos;
por trás desse nosso olhar fugitivo
e de todas aquelas palavras não ditas,
ainda tem você
e ainda tem eu
Não encontramos nenhum nós,
parece que ele se perdeu,
evaporou
Já até duvidamos se um dia ele realmente existiu...
Será mesmo?
Mas eu avisto claramente
com aquela nitidez mil
um pouco do que poderia ter sido
e não foi
Nessa fragilidade da vida
onde tudo se esparrama pelo chão
num piscar
e as possibilidades vão escorrendo pelos dedos
ainda que fechemos as mãos com força
elas vão encontrando as brechas;
os átomos se dividem,
se adaptam,
e passam, viajam, deslizam
e o que era não é mais;
e o que podia ser, idém
já não pode mais
Mas sempre fica no ar,
naquela risada conhecida
com som de lar
Fica na barba embarassada
que arranhou outrora a minha pele
- sensível que só ela, mas que adorava ficar marcada de você
Fica nos gestos confusos por insegurança e desejo
quase encabulados, mas intensos como nunca
Fica nos nossos olhares fugitivos
que só confirmam
que, realmente,
muita coisa ficou
Cravada, tatuada,
entre você e eu
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