sábado, 8 de fevereiro de 2014

As faixas amarelas



Passei por cima de mim mesma várias vezes por você. É que você chegou num momento que eu já estava cansada, muito cansada. Cansada de perder pessoas importantes para mim por orgulho. Mas, ironias da vida, depois de ter feito tanta gente sofrer com isso, não é que eu fui me envolver com uma pessoa exatamente assim, extremamente desconfiada e orgulhosa? Eu achei que eu ia ceder um pouquinho e que você, vencido, viria com o resto. Eu andaria metade da estrada e a gente estacionaria os carros, um de cada lado dela, atravessaria e se encontraria exatamente no meio, em cima daquelas duas faixas amarelas. Elas alertariam para a contra-mão e diriam que não era permitido ultrapassar. E eu imaginava que você não ia dar a mínima para elas, exatamente como eu queria. Nos beijaríamos ali mesmo, em cima das malditas. Pra ontem, pra anteontem, para antes de anteontem. Com pressa. Coisas da esfomeada, a tal da urgência de amar.

Mas, ás vezes, acontece dessa urgência ser unilateral. O outro até tem algum sentimento por nós, mas não podemos esquecer que a gente toca o outro cada um à sua maneira; e, da mesma forma, a gente sente o outro cada um à sua maneira. Ás vezes, a química é evidente, mas pode ser que ela não baste pra você ou pra mim. Pode ser que eu queira receber uma ligação sua no meio da semana com você perguntando como foi o meu dia, deitado na cama, só com os pés para fora, ainda calçados, olhando pro teto, sorrindo e tirando o sapato esquerdo com o pé direito e vice-e-versa. Pode ser também que eu queira escutar exatamente o que você fez no trabalho hoje e saber de todas as picuinhas que te estressam - e, quem sabe, até te fazer uma massagem depois disso pra você relaxar? Pode ser ainda que eu queira cuidar de você quando você tiver febre, fazer uma comidinha caseira ou pedir alguma coisa pelo telefone; fazer cafuné no seu cabelo ou te distrair te contando uma história engraçada; pegar um filme na locadora (sim, ainda adoro pegar filmes em locadoras) ou me render ao seu apreço pela tecnologia e baixar algum que acabou de entrar em cartaz e você tava louco pra ver - prometo que eu faço pipoca e tudo! Numa terça-feira que a gente não trabalhasse - afinal, somos os dois freelancers -, a gente iria passar a tarde inteira na praia ou então só tomaríamos um sorvete na esquina. Num sábado, você sairia com os seus amigos e ficaria de ressaca o domingo inteiro, mas, de repente, no fim do dia poderíamos pegar um cinema, o que você acha? Você me contaria o que a bebedeira rendeu pra cada um de vocês na noite anterior. A gente riria das histórias se repetindo. Na quinta-feira, eu iria com alguns amigos pro Baixo Gávea, pra Lapa ou pra São Salvador e você chegaria lá, me daria um beijo molhado e passaria a noite sentado em algum pé sujo (ou até mesmo no meio-fio) conversando com a gente sobre tudo e qualquer coisa. Ou não, ou ficaríamos 1, 2 semanas sem nos ver e depois mataríamos a saudade com uma noite daquelas. Ou com Mc Donald's às 3h da manhã. Ou melhor, com Fornalha. Tanto faz, o que importa mesmo é a companhia. Você poderia tocar violão pra mim qualquer dia desses e eu poderia cantar com a minha voz desafinada e com meus cabelos despenteados. A gente poderia também enrolar 4h pra sair da cama, fazer planos de viagens e de fugas por aí, colocar a pizza congelada no forno ou ir prum bar ver a luta que você tanto queria ver - apesar de eu não dar a mínima pra lutas. Ou, ou, ou.... são tantas as possibilidades. É, pode ser que eu queira. Pode ser que.

A gente tem a mania de achar que a vida vai acontecendo, como se fôssemos exclusivamente sujeitos passivos das nossas próprias, quando na verdade podemos ser protagonistas e até roteiristas delas. Esquecemos de como as relações são frágeis e de como podemos deixar alguém passar por orgulho, desatenção, etc e tal e, com essa pessoa, um leque enorme de potenciais momentos bons e ruins que poderiam fazer toda a diferença pra gente. E, numa dessas, encontrar um, dois, três, vários companheiros para a vida; não só amores românticos, mas também amigos, colegas e familiares há muito afastados - pessoas essas que nos mostram várias facetas delas e de nós mesmos; que estão lá para nos irritarem vez ou outra, mas para aquele ombro e palavra amiga quando precisarmos também, que nos amam por tudo que a gente deixou elas verem da gente. Parceiros. E, a partir de então, a gente vai, no nosso tempo, jogando a desconfiança prum lado, o orgulho pro outro e vamos até o meio da estrada, em cima das faixas que nos advertem para a contra-mão e nos condenam dizendo que não podemos ultrapassar de forma alguma. Decidimos não dar a mínima para elas. Quando tomamos essa decisão, pode ser que o outro já esteja ali na faixa nos esperando. Ou pode ser que ele não tenha chegado ainda, tenha pego um trânsito filho da puta pelo caminho. Ou ainda, pode ser que ele tenha chegado do outro lado da estrada, tenha estacionado o carro, mas não tenha tido vontade ou coragem de sair dele até então. Ou, pior, pode ser que o outro já tenha feito todo esse trajeto, já tenha deixado o carro, abandonado a desconfiança e o orgulho, atravessado metade da estrada e ficado nos esperando em cima da faixa. E pode ser que ele tenha se cansado de passar tanto tempo ali, nu, sozinho. Pode ser que tenha voltado para o carro, soltado o freio de mão, acelerado e retornado para o seu ponto de partida ou prosseguido para o destino seguinte. Tantos "pode ser que", tantas variáveis... nunca se sabe, on ne sait rien. Por via das dúvidas, tentemos não perdê-lo. Quando se tratar de alguém especial pra chamar de parceiro, que a gente não dê ouvidos às faixas amarelas. Elas já estão ali, juntas, em dupla, análogas e proporcionais em meio à toda aquela contra-mão em volta delas e à impossibilidade de ultrapassagem, assim é fácil mandar e desmandar, não é mesmo? Então, que essas ordens se restrinjam ao trânsito e nada mais, pois em matéria de amor elas não estão com nada. 

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

O último cigarro

Ela estava num bar papeando com alguns amigos. Palhaça, contava uma história atrás da outra - e uma mais absurda que a outra. Era o seu jogo, adorava ficar na dúvida sem saber se os outros riam dela ou com ela. E se fazia de sonsa, em tudo. Sabia como manipular cada um à sua maneira. Pesava cada detalhe, cada pinta, cada toque. E a fórmula sempre dava certo. Resultado? Uma legião de apaixonados e doidinhos da cabeça. Ela gostava.

De repente, ele chega. Conhecia um dos amigos dela e acaba sentando na mesa. Ela e ele já se conheciam já anos, amigos de amigos, mas nunca haviam ficado. Não que não tivessem tido vontade, a tensão sexual entre eles era evidente, mas ele sempre tava namorando. Ele, sério quando namora. Ela, séria com os que namoram, não acha legal ficar com cara comprometido, então nem provocava. Mas dessa vez não, ele estava solteiro.

Ela logo percebeu porque ele estava se comportando diferente, mais solto. Ela continuou com as suas histórias e ia chegando cada vez mais gente para escutá-las e rir (seja da garota ou com a garota). Ele ficou falando dos planos para o futuro, perguntando dos dela e dos amigos em comum dos dois. Se ela tinha notícias deles. Ela foi respondendo e entrando no jogo. Começou a olhá-lo muito fixamente nos olhos. Passava a mão esquerda suavemente pelo próprio pescoço enquanto isso. Pegou um cigarro, acendeu, puxou e tragou. Lentamente. Sem pressa. Mordia os lábios de temps en temps. Levantou-se tomando cuidado com os movimentos e se aproximou por trás, apoiando as mãos sob o peitoral dele. Isso tudo para dizer que ia ao banheiro. Ele já estava excitado e não conseguia disfarçar muito bem o transtorno que a menina estava causando em sua cabeça. Se adiantou e foi pegar uma cerveja enquanto ela estava no banheiro. Ela saiu, ainda mais bonita. Ele a esperava na porta com a cerveja gelada e com o copo extra. Ela riu, aceitou o copo e disse que pagava a próxima então. Ela disse para voltarem para a mesa e o pegou pela mão, carinhosa. Ele largou a mão e apertou a cintura dela, enquanto passavam pelo corredor que dava acesso à área com as mesas. Ela ia na frente. Fechou os olhos e suspirou. Chegando na mesa, sentou-se prestando atenção nas pernas, na postura, no sorriso, nos cabelos... em tudo. Queria estar irresistível para ele. E, de fato, estava.

Passados uns 10 minutos de conversa fora com o resto do pessoal, ela disse que iria lá fora no posto atrás de um cigarro. Ele disse que a acompanharia. E foram. Já sabiam que não voltariam para o bar naquela noite.

Pela rua, andavam lado a lado com o assunto afiadíssimo, numa intimidade súbita que surpreendia ambos. E, então, ele lembrou que ainda tinha um cigarro. Pegou no bolso e entregou pra ela. Ela aceitou, sorriu e apoiou-se num murinho de uma casa antiga que ficava nessa mesma rua. Ele, na sua frente. Ela apoia um dos pés no murinho, deixa a alça direita do vestido cair pelo seu ombro e acende o cigarro com calma, ora o encarando, ora olhando para o céu, para baixo, para frente. Sempre confiante.

Ele pára de falar. Apoia-se no poste que ficava logo à frente e curte esse momento, observando cada trago da menina. Os dois sorriem quando os seus olhares se encontram, mas respeitam o tempo do cigarro.

Primeiro ele, depois o beijo.



sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

fluido

vem, se achegue, meu bem
e me conta um detalhe qualquer
que eu ainda não saiba sobre ti

quero alimentar esse nosso amor
e beber mais e mais de ti

serve um retalho qualquer
uma partícula que seja

é que faz muito calor aqui, agora
esse verão tá de doer, tá de lascar
então vem você aqui me regar
e me deixa te regar de volta

não me deixe evaporar de ti, meu bem
que eu não te deixo evaporar aqui também

sejamos líquido um no outro
balançando e dançando
nos misturando e nos tornando
um só


Já era, era amor

Ele sabia como fazer o negócio. Sabia muito bem. Desde o começo, a envolveu com o seu sorriso de boca fechada e com os olhos que a comiam ardentemente, desde a primeira vez que a viu. De início, ela se sentiu invadida e não gostou, quis que ele se afastasse, que a deixasse ir. Não quis dar intimidade. Apesar disso, ele persistiu e, aos poucos, embora continuasse se sentindo invadida, começou a gostar disso; foi desarmada, se rendeu.

 Ele a fez implorar, pedir por favor. O rapaz queria conversar por horas e horas, mas ela já estava ficando louca com aquela espera; com aquela delonga; com aquela demora. Estava virando um suplício para ela. A menina já havia imaginado todo o filme dos seus corpos entrelaçados. Queria que ele a consumisse, a penetrasse, a desvendasse e a mostrasse tudo o que ela poderia ser e ainda não sabia.

Ela não era virgem, mas ainda assim perdeu muitas virgindades com aquele homem. Ele a mostrou seu próprio corpo, seus próprios gostos, os seus detalhes e retalhos. Ela sentiu, através dele, o seu próprio sabor. E gostou. Muito. Via a cena como se fosse uma mera observadora no recinto. Via o seu sorriso estampado, entre gemidos, de olhos fechados. Mãos para o alto, dedos entrelaçados à cabeceira da cama, segurando a madeira firmemente.

Ele foi suave, gentil. E completamente diferente de todos os outros. Ele a olhava nos olhos durante toda aquela luxúria. As suas mãos eram fortes, seguras, sabiam exatamente onde ir e como agir. Ele a disse que sabia que ela não estava acostumada a sentir tanto prazer, e que aquilo era só o começo. Disse também que ela levava jeito pra coisa e que ainda ia fazer muito marmanjo sofrer nas suas mãos. Ele quis dizer entre as suas pernas, mas não quis ser deselegante.

Deselegante, afinal, era tudo o que ele não era nenhum pouco. Era elegante em tudo: na fala, na linguagem corporal, no sorriso, nas piadas, no toque e até mesmo nas inseguranças. A princípio, ele as escondia muito bem. Mas, de pouquinho a pouquinho, ela sacou que a segurança dele era aquela segurança tipicamente adolescente, que funciona como uma máscara para esconder todos medos e a imensa dificuldade de entregar-se. Ela sacou, mas achava graça, achava bonitinho. Estava tão envolvida que não conseguia ver nenhum defeito naquele homem. Tudo, sob seu olhar, virava peculiaridade, aptidão, capacidade e, portanto, qualidade.

Ele é um cara que tem uma linha de funcionamento na cama. Tem ordem, tem planejamento. Sabe o que vai provocar, o que vai fazer sentirem com cada gesto, com cada toque. Com certeza, ele deve fazer muito sexo. Todas as meninas devem querer. Todas devem ficar assim, que nem ela ficou. É um homem que, por detrás dessa máscara, tem medo. Provavelmente, arruma muitas conquistas para lutar contra esse medo. É isso que ele faz da vida, faz amor; faz com que todas fiquem caidinhas por ele e, assim, ele alimenta o seu ego e joga os seus medos pra debaixo da cama. Parece funcionar, mas nem tudo que parece é.

Ela deixou o seu corpo ser o que ele queria ser. Permitiu que ele buscasse, que ele encontrasse, que ele fosse exatamente o que ele era e nem sabia, e nem podia. O quadril, liberto. As unhas cravadas nas costas dele. Os cabelos descabelados, e belos. O corpo arrepiado, molhado. A boca seca. Puxava os seus cabelos, beijava o seu pescoço. Como se fosse morrer logo em seguida. Como se fosse a primeira e, ao mesmo tempo, a última vez. Aquele momento lhe pareceu o ápice de toda a sua vida. Mal sabia ela que depois dele ainda viriam muitos outros. Pensava que não, que se tratava de uma química linda demais para que se repetisse. Nunca mais aconteceria, julgava a mulher. Mulher que ela estava se tornando justamente naquele momento.

Quando os dois acabaram, ela se entregou ao colchão deitada, rendida, embeiçada, enamorada. Ao lado dele. Ficou olhando para o teto por alguns segundos sem entender bem o que tinha acabado de acontecer. Ele, carinhosamente, virou o seu rosto para ele e mergulhou os seus olhos nos olhos dela por minutos e minutos, sem pressa. Ela ficou surpresa que ainda estava viva, que aquilo era real. O frio alcançou o seu ventre mais uma vez e a sensação era de que várias borboletas estavam voando de um lado para o outro, fazendo altas acrobacias áreas, tudo dentro dele. Ela sentiu medo de que aquilo acabasse, e se não fosse recíproco?

Decidiu abandonar aquele pensamento, sabia que não era hora disso. Fechou os olhos e o beijou, tirando todo o seu fôlego. Ele tremia, também estava no mesmo transe que ela. Ela pediu mais. Agora que havia experimentado, não queria mais largar o osso. Ele ficou feliz de realizar o desejo dela. Esse e tantos outros. Todas as vezes, ela achava que ia morrer. O coração fazia que ia sair pela boca. Mas não saía, tudo se mantinha sob controle. Bem, pelo menos todos os seus orgãos e suas funções vitais. O mesmo não podia ser dito sobre as suas fantasias e os seus sentimentos.

Seguidamente, conversaram por horas. Falaram sobre o sentido da vida, sobre mortes difíceis que enfrentaram, sobre alguns bons amigos que cada um carregava na memória, sobre realização profissional e tudo o mais. Já eram íntimos um do outro, num instante. Em meio a uma pausa, os dois dormiram. Abraçados, enlaçados, entrelaçados. Ela sonhou muito naquela noite, mas mal se lembrou quando acordou.

E os dois acordaram juntos, lado a lado. Fizeram cafuné um no outro e se amaram mais algumas vezes antes de tomarem coragem para se levantarem. Nem escovado os dentes eles tinham, mas isso não prejudicou nenhum pouco os beijos. Muito pelo contrário. Ela disse que precisava ir. Ele discordou. Ela sorriu, com os olhos e com a boca. Ele sorriu de volta e a envolveu em seus braços por trás, enchendo o seu pescoço de beijos, repetidamente. Ela arrepiou e os dois se amaram mais uma vez antes dela sair pela porta da sala.

E ele, esperto que é, estava completamente certo desde o princípio: aquilo tudo era só o começo. Ela ainda entraria e sairia muitas vezes por aquela mesma porta. Os sorrisos se tornariam familiar e cada pedacinho dos seus corpos também. Já era, pois era amor.

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

No ar



Vejo rastros de luz. Linhas, sinais, raios no céu. Eles vem através de nós, se entranhando na gente, passando eu pra você e você pra mim; fincando os frutos dessa conexão inegável e, simultaneamente, fazendo-os dançar. E os nossos pedaços vão caindo pelo chão, voando pelo ar. Gotas de mim e de você, partículas, matéria. Elas vem se misturando e transformando-se pela influência do externo; do outro; de nós, juntos. As gotas, os pelos, os suspiros. Eles vem caindo, dançando, bem suavemente. E tudo acaba numa eterna troca, que na verdade não acaba nunca. 

meia dúzia

Sonhei contigo ontem, ché-
ri.
Eu juro.
Depois de tantos meses sem bei-
jos
sem to-
que
sem chei-
ro
sem nós naquele emaranhado de cor-
pos
onde não se divide nós do-
is
não se vê onde eu aca-
bo e onde come-
ça vo-
cê.

Mas achei melhor nem te falar.
Vivemos nesse pacto
de calar verda-
des.
Nao sei se,
assim,
achamos que a fazemos maiores
ou se é fraqueza mesmo
pu-
ra
e simples-
mente.
Quem sa-
be?

Pena.
Íamos bem.
Te dei o meu telefone e to-
do,
simplesmente to-
do,
o meu corpo,
entregue
como se tivesse sido sem-
pre
teu.
Como se cê fosse nada menos qu'a
chave
para abrí-
lo
por com-
ple-to,
a chave que por tanto tempo
procu-
rei.

Senti saudades.
Ás vezes parecia até
qu'eu ia morrer de-
las.
Mas não, fui sobre-
vivendo
sem ti
me re-
fazendo
entre um passo e
outro
entre uma dan-
ça
e outra mais.

E fiquei bem.
Parei de te re-
moer,
até que chegou essa noi-
te
em que eu sonhei
com
vo-
cê.

Engulo a saliva,
respiro fun-
do,
busco afastar os pensamen-
tos,
mas eles insis-
tem em
vir
e me confun-
dir.

Pensei que cê iria me visitar, afinal
te passei meu endere-
ço
e até disse que era bem-
vindo
e que esse tam-
bém
é um bom país
pra se passar aniversá-
rios.

Mas cê não entendeu.
Ou não escu-
tou.
Ou,
pior,
escutou,
entendeu
e não quis.
Mas prefiro acreditar nas primeiras hipó-
teses.

Eu teria te esperado.
Pelada,
em roupa e pêlo
mas com pele de so-
bra
e cheia de
a-
pelo.
Mas acontece que
cê nunca apare-
ceu.

No meu sonho,
po-
rém,
cê vinha
bonito e pronta-
mente.

Lutávamos contra o outro
e contra nós
mes-
mos,
em forma de sexo.
Disputa justa,
mas sem re-
gras.
Vale tu-
do.

E, então, calamos mais uma
vez.
E eu perdi o resto da sanidade qu'eu
inda ti-
nha
olhando direta-
mente
pros seus olhos
infini-
tos.
Parece que cê fez de propó-
sito,
quem mandou olhar
de vol-
ta?

E, depois de to-
da
a entrega,
cê partiu.
Mas me deixou,
antes,
uma carta na me-
sa
da sala.
Me tremi to-
da
pra lê-
la,
mas li.
Nela, meia dú-
zia
de pala-
vras.
Mais do que suficien-
tes.
Expressando tudo que tam-
bém trans-
borda
do meu pei-
to
já há tan-
to.

Me aceita, meu
bem.
Se ache-
ga,
me bei-
ja
e me diz pra
ficar.
What's the point,
ché-
ri,
de se se-
pa-
rar
sí-
la-
bas
assim sem nem
pre-
ci-
sar.
Me deixa te mostrar que a gente cabe sim numa mesma frase,
e inda pode ser coeso.

terça-feira, 19 de novembro de 2013

caidinhos

cê me disse que vê muita vida
nestes meus olhos amarelos
e disse assim mesmo
"amarelos"
e,
em seguida,
discutimos por longos minutos
sobre o tom da cor dos tais

cê disse que relutou muito
em se perder neles
mas que desistiu, já fraco
- era inútil, concluiu

por último, ainda disse
que a forma deles, caidinhos
só dá a eles mais humanidade,
mais subjetividade,
mais força,
uma vez que cê vê a força como
coragem de mostrar as fraquezas
já que essas,
por
sua
vez,
habitam todos nós,
por mais que mintamos
escondamos
e disfarcemos

- é humano, bonita,
ser sensível e passível de ser
mudada, tocada e d'amar

é preciso ser muito macho pra tal,
masculinamente feminina


segunda-feira, 14 de outubro de 2013

O que seria?

O seu quarto tem esse mistério engraçado que de mistério nem tem tanta coisa assim. É que a luz está acesa e, de repente, apaga. Sempre foi assim. Mas não tenhamos pressa, pois minutos depois, sem regra alguma –pelo menos ao que nos parece-, ela reacende. O tal do mistério provavelmente se dá por um simples mal contato. Alguém não deve ter arrochado a lâmpada como ou tanto quanto deveria. Provavelmente foi isso, mas eu gosto de acreditar que é algo a mais. Como se o quarto tivesse vida. E eu realmente acho que ele tem um pouco, sabia? Cada informação se complementa e nos ajuda a completar esse quebra-cabeça que é esse cômodo onde você habita. As primeiras páginas de jornal pela parede, em linhas retas. A cama gigante com uma tanga de tartaruga vermelha e amarela acima dela, presa a outra parede. Os dois sofás, apertados no resto do espaço e convidativos como só eles, distribuindo aconchego. A mesinha de centro com as garrafas de dias atrás, os isqueiros e cinzeiros. E, claro, o resto do suco de laranja natural. A tevê que mal funciona à esquerda da mesa e as duas, juntas, tampando parcialmente a enorme janela que nos lembra que há um mundo lá fora. A janela, no momento, disfarça essa sua função, escondida por uma cortina laranja, bem bonita. E você, sentado no sofá à minha direita, com as pernas de índio, portando um sorriso amigo, testa os isqueiros que estão a sua frente pra ver se algum funciona. O primeiro, nada. O segundo arrisca soltar uma faísca, mas decepciona. O terceiro, idem, mas o quarto funciona. Você então o acende triunfante. Nessa hora, a lâmpada viva do seu quarto resolve apagar-se. Eu te olho fixamente. A chama do isqueiro queima o seu cigarro. Você traga com vontade, uma tragada daquelas há tanto ansiada. Prende, puxa e solta a fumaça em pequenas bolas. A fumaça sobe e eu observo a sombra dela na cortina laranja. É que você está brincando com o isqueiro agora e a sua chama, por sua vez, está iluminando a cortina. Que bonita a fumaça subindo, no seu tempo, anestesiando os nossos corpos, e todo o entorno. Eu me rendo ainda mais ao sofá, estou prostrada. Meus dedos estão separados um dos outros, abertos, unidos ao tecido que forra esse tal de sofá que, originalmente, ficava na sala. Que bom que decidimos trazer pro seu quarto, fica bem melhor aqui. Você abandona o isqueiro na mesa e sentimos a escuridão momentânea do ambiente. Eu respiro fundo e te sinto, apesar de não nos tocarmos. Sorrio de boca e olhos fechados, mas de alma aberta. Penso que esse deve ser o sorriso mais sincero, justamente esse sorrido no escuro. Não passa pelas nossas mentes, quando sorrimos esse sorriso, a intenção de mostrar para o outro que estamos felizes, satisfeitos, bem. Ele nada vê, não temos luz. Nós nada mostramos, apenas somos. É aquele sorriso de dentro pra fora, de quem sorri quase que por não resistir. O sorriso começa pelo coração, passa pelas veias todas e sai pela boca, anônimo, livre. Não está indo para lugar nenhum, ele simplesmente é, aqui e agora, sem olhares ou julgamentos. Me sinto feliz. Sinto o imã nesse sofá, nessa casa, nesse bairro e cidade. Sinto o imã que me puxa bem forte. Não tinha jeito, era pra eu ter vindo, já nem imagino um outro roteiro. O que seria de mim sem a chegada acompanhada de frio na barriga (e nas mãos; e nos pés; e no rosto; e na alma?). Afinal, era inverno quando eu cheguei por essas terras. O que seria de mim sem a solidão mais solitária de todas? Sem os beijos em mim mesma, debaixo dos edredons? Sem a dificuldade da língua, da falta de toque e de violão? Sem a estranheza de corpos, de clima e a ausência de miscigenação? O que seria de mim sem o primeiro abraço sincero em dias tão frios, sem as primeiras confissões do amigo, sem a língua materna proferida por ele que veio esquentar o meu coração? E ainda, o que seria de mim sem elas, tão práticas e simplistas, sempre em busca de uma festa e de um vinho bom? E, mais, sem aqueles que chegaram e me fizeram sentir lar, carinho, afago, pele, apego, cabelo, apelo. O que seria de mim sem eles? E as andadas, caminhadas, sozinha ou acompanhada. Longas, demoradas, de volta pra casa, principalmente. Aquele momento pra pensar. Primeiro, eu ia agasalhada e, depois, conforme foram passando os meses, os casacos foram sendo guardados na mala, substituídos por finos Cardigans até que desaparecessem. E, ainda, o que seria de mim sem as visitas? Tantas que me trouxeram um pouco de casa, de lar. O riso do amigo antigo. O reconhecimento do outro e de mim. Tantas histórias, tanta vida. Seguimos juntos, mais pra lá ou pra cá, mas sempre como parte um do outro. E o que seria de mim, ainda, sem os cappuccinos nas madrugadas na companhia do amigo-irmão que eu nem posso dizer que fiz, e sim que reconheci, por essas terras francesas? Cappuccino esse regado por histórias mil, sem roteiro, sem ordem, sem vez e, aparentemente, sem porquês. Mas tem porquê em tudo. Ou em quase tudo ou, pelo menos, em muita coisa. Será mesmo? E sem as racionalizações inacabáveis, como eu ficaria? Certamente mais sã, mas também mais vazia. E sem a ansiedade, sem o coração acelerado, sem o medo? E sem o primo, seja por skype, por email, por mensagem, ou por telepatia até. E sem ele, o que eu seria? E sem a dança, sem o corpo, sem o tempo pra puxar o ar e piruetar? Sem as viagens, sem as voltas pra casa, sem as dores nas costas pela mala pesada. O que seria? Sem o verão que foi chegando, sem os dias no parque deitada na grama, sem a camaradagem. Sem o cabelo curtinho, sem o olhar penetrante, sem o vestido vermelho. Sem as noites embriagadas, sem os livros engolidos, sem as páginas rabiscadas. Sem os papéis acumulando, sem os números atormentando, sem a saudade de casa. Sem os sonhos alucinógenos, sem as interpretações ora tranqüilizantes, ora apavorantes, mas nunca desconsideradas. Sem as aulas que me inspiraram, sem as madrugadas acordada repassando cada uma das possibilidades. Sem a imaginação, sem a verdade, sem o sonho, sem tantos adeus. O que seria de mim? Sem a sua barba embarassada, sem o riso solto do outro, sem a tatuagem daquela. Sem a bicicleta de dia ou de noite. Sem as descidas com o vento nos cabelos e no peito, sem a mão no freio. Sem as vistas da cidade, sem as novidades, sem aqueles cantinhos. Sem o medo, sem os resultados, sem as soluções. Sem seus envelopes que sempre traziam boas novas. É que ele disfarça e só me anuncia o que me cura, nunca o que machuca. Sem a falta do pai, sem a mudança do amigo, sem o tempo que nos separa uns dos outros. E cava; cava fundo, nos deixando cheio de buracos, cicatrizes, machucados. Sem a Itália, sem a pizza, sem o chianti. Sem o calor, sem a praia, sem o bronzeado. Sem os cachos de cabelo dela, sem a risada gostosa, sem as reflexões, sem o escrito no muro na piazza Santo Spirito. Sem nos perdemos, sem nos encontramos, sem os anjos pela estrada. Sem as fotos dos pés, sem a calma, sem as piadas. Sem os amigos preservados pelo tempo e distância. Sem a vista pro mesmo palácio depois de dois anos. Sem o reencontro e sem o abraço. Sem as cervejas no metrô, sem as conversas se poucas palavras e muito significado. Sem as marcas da guerra da Bósnia que também marcaram a mim. Sem o narguilé, os relatos e as marcas de bala nos prédios da cidade. Sem a mudança de casa, sem as malas pesadas, sem a ansiedade no peito. Sem a arrumação sofrida, sem a estranheza do momento. Sem a visita deles, sem os sofás abertos na sala com a gente prostrado. Sem os engradados de cerveja quente e sem a geladeira para gelá-los. Sem a fila de velovs, sem as escaladas de prédios e árvores. Sem os ônibus noturnos, sem o incômodo na lombar, sem as passagens baratas. Sem as informações na rua, sem os mapas mentais; sem as setas, sem as cabanas, sem o wi-fi. Sem o cabelo vermelho, sem o abraço da mãe, sem o esforço, sem as palavras de paz. Sem os mercados, sem os supermercados, sem os cartões-postais. Sem os olhares, sem os filmes, sem as lembranças, sem os suspiros. Sem as surpresas, sem os drinks, sem o italiano, sem as mãos atadas. Sem a volta pra casa, sem o resmungão. Sem o show inesperado, sem correr abraçadas, sem o prosecco do bom. Sem aniversário, sem a toca de jazz, sem ela feliz. Sem a nota que toca, sem a vontade de dançar, sem o francês cantado, sem. Sem a despedida, sem o tramway solitário, sem o soluçar. Sem as brasileiras verde-e-amarelas, sem o feijão preto, sem plantar bananeira. Sem a simpatia alheia, sem a sorte grande, sem essa missão. Sem eles, sem a fumaça, sem união. Sem MPB, sem samba, sem zaz, sem batidão. Sem batucada, sem bagunça, sem bordel, sem alienação. Sem beber no quai, sem amigos, sem abraço, sem vinho barato. Sem risada, sem coloc, sem festa, sem baseado. Sem bolo de chocolate, sem maldade, sem saudades nem novidades. Sem planos. Sem separação, sem divisão, sem “por que nós?”. Sem a carta da vó, sem choro, sem lembrança. Sem pressão, sem motivação, sem fita métrica. Sem vontade, sem boca, sem cafuné, sem palavrão. Sem dicionário, sem armário, sem armadura, sem porão. Sem contagem regressiva, sem frio na barriga, sem vento na cara. Sem volta do inverno, sem cinema, sem marca na cara. Sem sinceridade, sem riso engasgado, sem turbante. Sem escada, sem degraus, sem olhar pra frente, sem um de cada vez. Sem conquista, sem chegada, sem volta, sem palavra, sem vestígio, sem tatuagem, sem início, sem vadiagem. Sem postura, sem pintura, sem obra-de-arte. Sem cultura, sem teatro, sem balé, nem pé. Sem pé nem cabeça, nem sentido. Sem desenho pendurado pela casa, sem mistério, sem quase nada. Sem porquê, sem limite, sem máscara, sem maquiagem. Sem cara limpa, sem corpo, sem vontade. Sem perigo, sem sexo, sem coxa, sem apelo. Nem nuca, sem olhos nos olhos, sem perdão, sem resposta, sem outra vez. Sem mistura, sem assombro, sem arte, sem ilusão. Sem tempo, sem piada, sem calma, sem crescimento, sem união nem transformação. Sem Lyon, sem cada um de vocês, sem nós, sem meu, sem eu.

domingo, 13 de outubro de 2013

psiu

Para Diego Asensi


existe um laço entre nós
ele é inegável, forte e maleável
se mexe, se adapta, se modifica
muda de cor, de material e até de sabor

mas mantém uma espécie de essência
do misturar entre eu e você
essência essa já comum a nós dois,
de casa

e flechas de flashs seus me invadem
nessa noite fria
velozes, como pontadas
me impressionando como é de costume
eu tou drogada ou isso é verdade?

respiro, abençoada pelo pôr-do-sol carioca,
de barriga pra cima, olhos fechados, no deck da lagoa
faz um ventinho bom,
solto o ar com calma

e você vem e tira de mim verdades tão grandes
e há tanto ignoradas, enterradas, refugiadas em mim
mesma

- ei, psiu, você
eu venho aqui pra dizer
um obrigada por me guiar

com um empurrãozinho ali e outro acolá